sexta-feira, 13 de julho de 2012

Pink Floyd - "Pigs (Three Different Ones)"

«Pink Floyd de "Animals" a "The Wall" - Um muro ao fundo do túnel» (Parte 2)

Capítulo IV - Um porco na estrada

O nascimento de "Animals" foi um processo difícil e moroso, que deixou mazelas anímicas nos membros dos Pink Floyd, mas foi apenas o início: o início do fim.
Uma vez lançado o monstro para a rua, era preciso alimentá-lo, levá-lo à estrada. Mas isso, nesta altura do "campeonato", com os Pink Floyd no topo do Mundo, só poderia ser feito em larga escala. Assim, os Pink Floyd decidiram que, dando resposta à elevada procura em algumas cidades, estava na hora de sair do conforto das arenas e aí levar o seu espectáculo para grandes estádios.

A fome de sucesso (e de dinheiro) da máquina dos Pink Floyd era enorme, pelo que foi lançada uma campanha de promoção muito agressiva para a digressão de promoção a "Animals", enchendo páginas dos jornais com maior tiragem nos países que visitou. Embora o álbum não tenha sido comercialmente tão bem sucedido como os dois anteriores, os Pink Floyd bateram recordes de escala, de demanda e de vendas de bilhetes, esgotando arenas e estádios na Europa e nos EUA.
A procura era imensa e a ganância dos promotores ainda maior, de tal forma que, para fazer face à elevada demanda de bilhetes, as salas estavam muitas vezes claramente sobrelotadas. Foi o caso do Soldier Field Stadium em Chicago, para onde deveriam ter sido vendidos 67 000 bilhetes, mas foram na realidade emitidos mais de 95 000, lesando a banda em centenas de milhares de dólares.

"You're nearly a good laugh, almost a joker
With your head down in the pig bin saying 'Keep on digging'"



Dentro do espírito megalómano que já estava intrínseco a tudo o que os Pink Floyd faziam, a banda decidiu levar consigo Algie (em baixo, à esquerda), o grande ícone de "Animals" - um porco insuflável gigante, que flutuava sobre a audiência e se tornaria numa das imagens de marca da banda. Foi projectado um palco mais elaborado e foram ainda criados outros insufláveis, como a "Família Nuclear" (em baixo, à direita), para completar o cenário. Mas o que ficou para a História foi mesmo o porco insuflável, que passou a presença assídua nos concertos dos Pink Floyd e, mais tarde, de Roger Waters a solo.


E foi assim que nasceu a "In The Flesh Tour" (ou "Animals Tour"), que espalhou raiva e desdém pela Europa e os EUA fora, desde Janeiro a Julho de 1977, em 55 concertos.
Musicalmente e energicamente, a banda estava melhor do que nunca: coesa e confiante. Pela primeira vez desde 1972, foram dispensadas as backup singers, mas foi recrutado o guitarrista Snowy White (que já tinha estado nas gravações de "Animals"), bem como o saxofonista Dick Parry, que preenchiam a paisagem sonora da banda em palco.

A estrutura do espectáculo era fixa: no 1º Set, o álbum "Animals" completo, numa sequência diferente da original; no 2º Set, o álbum "Wish You Were Here" completo, na sequência original; nos encores, o normal era a banda tocar "Money" ou "Us And Them", do álbum "the Dark Side Of The Moon", embora nalgumas ocasiões tocassem os dois. Com a interpretação dos 2 últimos álbuns completos, muitas vezes reforçados por longas passagem de improviso, mais um encore (por vezes alargado), os espectáculos desta digressão foram uma demonstração de força dos Pink Floyd como "banda de palco", para além do espectáculo que os rodeava.
Embora as digressões anteriores já tivessem utilizado lasers, projecções e insufláveis, foi especialmente a partir daqui (começando com a digressão "The Wall Live" original), que os concertos dos Pink Floyd começaram a atirar os intérpretes da música para um plano quase "complementar" do espectáculo.

Por tudo isto e por ser a última digressão com maior "liberdade de improviso", a "In The Flesh Tour" é amplamente reconhecida como uma das mais memoráveis digressões da História dos Pink Floyd e ainda hoje é vista com saudade pelos fãs da banda. Mas esteve longe de ser uma digressão fácil. Começando pela escala monumental dos concertos.
Outrora intimistas e em salas pequenas, os concertos dos Pink Floyd eram agora um espectáculo teatral imenso - à imagem da megalomania de Waters - servido para dezenas de milhares de espectadores, onde a música representava apenas uma parte do entretenimento. O mais curioso é que quem estava a ter mais problemas em lidar com este novo paradigma, era o próprio Roger, cujo comportamento foi ficando sucessivamente mais agressivo, à medida que a digressão foi avançando.

As faíscas dentro da banda não tardaram a surgir e as relações entre os membros dos Pink Floyd foram-se deteriorando. Foi nos EUA que a situação piorou e a determinada altura, Richard Wright chegou mesmo a apanhar um avião para a Inglaterra, ameaçando deixar a banda a meio da digressão. Waters, mais uma vez ele, começou a isolar-se do resto da banda, chegando às salas sozinho e saindo imediatamente a seguir ao fim dos concertos. Para piorar, a sua nova namorada não se dava com Ginger Gilmour - a mulher de David na época (não eram só os homens que se davam mal...) e aí surgiu mais um ponto de discórdia entre os dois. Nesta altura, David Gilmour já não via futuro nos Pink Floyd, uma vez que já tinham atingido tudo o que sonharam e partir daí seria sempre a descer.

O ambiente estava muito difícil.
Quando finalmente chegaram as últimas noites da "In The Flesh Tour" em Julho, na Costa Leste dos EUA e Canadá, o copo transbordou.

Capítulo V - Um porco no estádio

Se é verdade que a "In The Flesh Tour" deve a sua especial mística à agressividade com os Pink Floyd interpretavam as suas músicas no palco, não é menos verdade que foi essa agressividade que matou a banda. Com ferros matou, com ferros morreu.
Roger Waters, sempre ele, era nesta altura a figura central da banda, quer como força criativa, quer como força anímica. O seu comportamento cada vez mais agressivo ao longo da digressão foi a faísca demasiado incandescente, que acabou por consumir a banda em lume forte, uns anos mais tarde. Até lá, Roger ainda foi a tempo de criar uma das maiores obras primas da História do Rock: "The Wall".
Grande parte do caminho pelo túnel tenebroso que levou Roger Waters ao muro de "The Wall" foi percorrido ao longo da "In The Flesh Tour" e terminou na noite de 6 Julho, no Estádio Olímpico de Montreal, a última data da digressão de "Animals".


Poucas noites antes, no Madison Square Garden em New York, Roger já tinha perdido a cabeça com os técnicos de luz, contratados localmente devido à greve dos técnicos da comitiva dos Pink Floyd. Dando-se conta da dificuldade em manusearem o equipamento da banda e acertarem com as luzes no palco, Roger mandou parar a banda e gritou: "I think you New York lighting guys are a fucking load of shit!".

Em plena era de rebentamento do punk, par uma banda de massas como os Pink Floyd, o público era um "bicho" difícil de lidar, para quem estava habituado às audiências mais contemplativas do início da década de 70.
Durante a digressão, especialmente nos concertos americanos, com audiências mais barulhentas, era frequente Waters insultar os espectadores das primeiras filas que não paravam de gritar nos temas mais calmos, bem como os que levavam petardos para rebentar na sala, desconcentrando a banda.
Na noite de 6 Julho, em Montreal, diante de aproximadamente 90 mil pessoas, Roger não aguentou mais. Um grupo de miúdos mais entusiasmados da fila da frente irritou Roger ao ponto de... já lá vamos.


Com a prática e a confiança acumulada ao longo da digressão (para além das já referidas tensões), o último concerto da "In The Flesh Tour" foi musicalmente muito forte. A banda mostrava forte coesão e durante os primeiros temas do álbum "Animals" ("Sheep", "Pigs on the Wing (Part I)" e "Dogs") tudo parecia correr dentro do normal em cima do palco. Fora dele... nem por isso. A audiência mostrava-se particularmente faladora e barulhenta, ouvindo-se uma série de petardos a rebentar, aqui e ali. Era impossível esperar que 90 mil pessoas se mantivessem quietas.



Quando chegou "Pigs on the Wing (Part II)", Roger Waters perdeu a paciência. Depois de tentar tocar os primeiros acordes do tema, por 3 vezes, na sua guitarra acústica, rebentou mais um petardo e Roger parou de tocar, dirigindo-se assim ao público:



"Aww, for fuck's sake, stop lettin' off fireworks and shouting and screaming, I'm trying to sing the song!
I mean, I don't care.. If you don't want to hear it, you know... Fuck you! I'm sure there's a lot of people here who do want to hear it. So why don't you just be quiet!
If you want to let your fireworks off, go outside and let them off there, and if you want to shout and holler, go and do it out there...
I'm trying to sing a song that some people want to listen to! I want to listen to it..."

Estava assim feita uma declaração de guerra à audiência, não só do Estádio Olímpico de Montreal, mas também de todos os concertos dos Pink Floyd. Pelo disparo de raiva contra o seu próprio público, como um pai para um filho mal comportado, percebe-se que Roger estava farto de tudo e tinha chegado ao seu limite.

A banda continuou, mas Roger não tinha ainda terminado de despejar a sua amargura no público de Montreal. Quando chegou "Pigs (Three Different Ones)", Roger cumpriu a profecia que o próprio lançara num verso do tema "Dogs", chocando a audiência, a banda e, principalmente, ele próprio. Durante a secção de improviso no final do tema, Roger chamou um dos fãs da fila da frente para cima do palco e cuspiu-lhe na cara. "Who was trained not to spit in fan", indeed.



É impossível dizer exactamente quando é que foi a cuspidela, mas pelo destempero que Roger mostra no fim do tema, percebe-se que perdeu o controlo e ficou perturbado com o que acabou de fazer. Depois de ter cuspido no rapaz, Roger grita:

"Come back pig! All is forgiven! Come on, boy!"
(assobia, como se estivesse a chamar um animal)
"Come on, son! YEEEAAAH"

Tudo o que se passa no palco ganha contornos ainda mais macabros com a música sinistra de improviso, de "Pigs (Three Different Ones)", que a banda está a tocar neste momento.

Este foi o momento de epifania de Roger Waters, quando chegou à conclusão que nada daquilo fazia sentido: "Afterwards I became really depressed and thought, ‘My God, what have I been reduced to?'"
No fim da noite, de volta ao quarto de hotel, Roger percebeu que a audiência era um perigo para ele, uma vez que o estava a alienar do Mundo real e, mais que isso, ele próprio se tornara um perigo para a audiência, como ficou demonstrado pela famosa cuspidela.
Foi desta ideia de perigo mútuo que Roger Waters formulou a ideia do muro, um muro que separasse a banda e a audiência, garantindo que ninguém fizesse mal a ninguém.
Foi esta a base de construção do muro, foi esta a origem da ideia por trás do álbum "The Wall".

Epílogo - Um muro...

Se é habitual ouvir que os álbuns dos Pink Floyd são uma viagem, eu diria que "Animals" nos leva para um túnel escuro, numa fábrica abandonada. Como a que vemos nas fotos que acompanharam a edição original do álbum, em vinyl. No fundo desse túnel, um muro: "The Wall".
Deixo a última palavra a Roger Waters:

"In the Old Days, pre-Dark Side of the Moon, Pink Floyd played to audiences which, by virtue of their size, allowed an intimacy of connection that was magical.
However, success overtook us and by 1977 we were playing in football stadiums. The magic was crushed beneath the weight of numbers. We were becoming addicted to the trappings of popularity.
I found myself increasingly alienated in that atmosphere of avarice and ego until one night in the Olympic Stadium, Montreal, the boil of my frustrations burst.
Some crazed teenage fan was clawing his way up the storm netting that separated us from the human cattle pen in front of the stage screaming his devotion to the demi-gods beyond his reach. Incensed by his misunderstanding and my own connivance, I spat my frustration in his face.
Later that night, back at the hotel, shocked by my behavior, I was faced with a choice. To deny my addiction and embrace that comfortably numb but magic-less existence or accept the burden of insight, take the road less traveled and embark on the often painful journey to discover who I was and where I fit.
THE WALL was the picture I drew for myself to help me make that choice."



quinta-feira, 5 de julho de 2012

Pink Floyd - "Dogs"

«Pink Floyd de "Animals" a "The Wall" - Um muro ao fundo do túnel» (Parte 1)

Prólogo - ...ao fundo do túnel

O álbum "The Wall" já foi assunto aqui no blog quando Roger Waters trouxe a Lisboa a sua megalómana digressão "The Wall Live", em Março de 2011.
Entretanto, Waters levou esse conceito uns passos mais além, expandido o espectáculo para uma escala ainda maior e levando-o a estádios um pouco por toda a América do Sul e do Norte. A digressão tem sido um sucesso retumbante, dando-lhe a visibilidade que lhe escapava desde que deixou os Pink Floyd, em 1985. De tal forma que o histórico baixista dos Pink Floyd foi entrevistado pela CBS, no popular programa "60 Minutes".

A história que vos quero contar (hoje numa primeira parte, que terá continuação mais tarde) explica qual é a origem da ideia por trás do icónico álbum dos Pink Floyd, um dos mais vendidos da História da música.

Mas para perceber a origem de "The Wall", temos que recuar até "Animals", mais precisamente até à noite de 6 de Julho de 1977, a última noite da lendária "In The Flesh Tour" - a digressão de promoção ao álbum "Animals". Mas já lá vamos.
Antes disso, atentemos no álbum "Animals", lançado em 1977, possivelmente o conjunto de temas mais agressivo de todo o catálogo dos Pink Floyd.

Capítulo I - Uma faísca perigosamente incandescente

Na ressaca do mega-sucesso dos álbuns "The Dark Side Of The Moon" (também um dos álbuns mais vendidos de sempre, ainda mais que "The Wall", ficando nas tabelas dos EUA durante mais de 15 anos (!!) consecutivos (!!!)) e "Wish You Were Here", os Pink Floyd estavam, em 1976, no topo do Mundo. No entanto, a gravação do álbum seguinte seria tudo menos pacífica.

Nesta altura, os Pink Floyd já tinham alcançado tudo o que poderiam sonhar, como artistas e como estrelas Rock. Desde o sucesso, primeiro localmente como banda de culto e depois internacionalmente como banda de massas, passando pelas vendas monumentais, a aclamação por parte da crítica, a enorme legião de fãs, que enchia estádios em toda a Europa e toda a América, o hedonismo e, como é óbvio... muito, muito, MUITO... dinheiro. Depois de tudo isto, já não havia muito mais que fazer para uma banda como os Pink Floyd, que neste momento já era um monstro fora do controlo de qualquer dos seus membros. A estes, restava continuar com o espectáculo.

O problema é que as tensões dentro dos Pink Floyd já faziam faíscas perigosamente incandescentes. À cabeça destes atritos, estavam as 2 questões clássicas que se levantam, sempre que se cria um monstro de popularidade: poder e dinheiro.
O dinheiro, apesar dos lucros obscenos que a banda apresentava, já começava a ser um problema, uma vez que em 1976, os Pink Floyd decidiram investir em capitais de alto risco, os quais fizeram a banda perder milhões de libras.
Já o poder, esse tinha um nome: Roger Waters.
Foi nesta altura que Waters começou a ganhar cada vez maior proeminência na banda. O novo álbum "Animals" tinha 5 faixas e com a excepção de "Dogs" (escrita com David Gilmour), todas as faixas foram escritas por Roger Waters, sendo a primeira vez que Richard Wright não contribui com qualquer tema num álbum dos Pink Floyd. "Pigs on the Wing", um curto tema acústico, foi dividido em dois, de modo a abrir e fechar o álbum. Porém, como as royalties (dividendos por direitos de autor) eram distribuídas de acordo com o número de faixas e não com a duração das mesmas ("Dogs" ocupava o Lado 1 praticamente todo), Waters recebia muito mais dividendos que Gilmour. Poder e dinheiro, portanto.

Capítulo II - O Triunfo dos Porcos

""Animals" was a slog. It wasn't a fun record to make, but this was when Roger really started to believe that he was the sole writer for the band. He believed that it was only because of him that the band was still going, and obviously, when he started to develop his ego trips, the person he would have his conflicts with would be me."

Richard Wright

A verdade é que Roger Waters era, de facto, a grande força criativa da banda. Pelo menos no que concerne ao lado conceptual. Tal como tinha sucedido com "The Dark Side Of The Moon", também "Animals" nasceu de uma ideia de Roger Waters: fazer um álbum conceptual baseado na obra "Animal Farm" (em português: "O Triunfo dos Porcos") de George Orwell.
"Animal Farm" é uma fábula politico-social, onde as várias classes da sociedade são equiparadas a diferentes espécies de animais: os cães, como forças de combate (exército); os porcos, como forças dominantes, déspotas e cruéis (classe política); as ovelhas, como seguidores cegos e acéfalos das forças dominantes (o povo).
Na alutra do seu lançamento, o livro de Orwell serviu como uma crítica ao Comunismo (mais precisamente o Estalinismo, em vigor na URSS), mas Waters usa as mesmas alegorias para desconstruir a sociedade capitalista em que vivia. Ao comparar a condição humana à de meros animais de quinta, Waters pretendia pôr a nu a dissolução moral e social da sociedade de então.
Sendo o capitalismo e o comunismo duas doutrinas teoricamente antagónicas, não deixa de ser curioso que as mesmas metáforas encaixem que nem uma luva na crítica a qualquer uma delas.

"Animals" é um álbum duro, raivoso, revoltado. Um álbum que bebeu a sua inspiração da raiva e da revolta que os membros dos Pink Floyd sentiam na época, seja em relação à sociedade (Waters), seja uns pelos outros. Estes sentimentos estão bem patentes ao longo de todo o álbum, quer na lírica e na forma irada como Roger e David cantam, quer na música e na forma furiosa como os Pink Floyd a tocam.
Ouçam os solos de David Gilmour em "Dogs" e no final de "Sheep" e digam-me se ele não estava fod**** da vida quando os tocou em estúdio. David vivia um dos momentos mais inspirados da sua carreira e, neste caso, não importa se a sua inspiração veio do (eterno) conflito/rivalidade que mantinha com Roger Waters, ou do nascimento do seu 1º filho. O que importa é o que ouvimos e o que ouvimos é fabuloso. Se é recorrente ouvirmos que Gilmour faz a guitarra falar, em "Animals" a guitarra de Gilmour fala alto e... com palavrões.

"It's too late to lose the weight you used to need to throw around.
So have a good drown, as you go down, all alone, dragged down by the stone."



Para materializar o álbum conceptual baseado em "Animal Farm", os Pink Floyd pegaram em 2 temas de 1974, deixados de fora de "Wish You Were Here", e desenvolveram-nos para a temática do álbum. Os temas em questão são "Raving and Drooling" e "You Gotta Be Crazy", peças longas já conhecidas pelo público que assistiu a qualquer concerto da digressão de promoção a "Wish You Were Here". "Raving and Drooling" deu origem a "Sheep" e "You Gotta Be Crazy" foi rebaptizado e reformulado para "Dogs", a única composição de David Gilmour (conjuntamente com Roger Waters) em "Animals".
"Dogs" e "Sheep" foram separados por "Pigs (Three Different Ones)" - um tema novo de Roger Waters - e, como referi em cima, a curta peça acústica "Pigs On The Wing" abria e fechava o álbum. Estava assim feito mais um álbum "à Pink Floyd", com apenas 5 temas, sendo que as duas partes de "Pigs On The Wing" não chegavam a 2 minutos e meio.

O tema que aqui deixo hoje é "Dogs", um dos temas mais furiosos deste álbum. Aqui ouvimos a receita para a criação de um bom homem de negócios, um homem que triunfe num mundo de porcos. Para tal, este homem deve estar sempre de sobreaviso em relação aos colegas, ser obediente à chefia (qual cão amestrado), não ter amigos e estar sempre preparado para lhes "espetar a faca".

"You have to be trusted by the people that you lie to, so that when they turn their backs on you, you'll get the chance to put the knife in"

Capítulo III - Um porco a voar

Apesar de não ter sido comercialmente tão bem sucedido como os seus antecessores, o álbum "Animals" deixou uma marca iconográfica indelével na cultura Rock. E isso deve-se a Algie (o porco a voar), à Battersea Power Station em Londres e a uma fotografia sublime, que ficará para sempre como uma das melhores capas de um álbum na História do Rock.


Sombrio e intrigante. Fabuloso.
Lembro-me perfeitamente de, quando miúdo, olhar para a capa do vinyl do meu Pai e ficar assustado. Era uma mistura de sensações sui generis: por um lado, intrigado com o porco a voar junto às chaminés, por outro estarrecido com o poder sombrio desta imagem. Assustava-me, mas eu tinha que olhar. Uma atracção fatal.

A ideia do porco a voar sobre a Battersea Power Station foi também de Roger Waters. Nessa época, Roger passava pela estação regularmente e terá achado que aquela era uma imagem muito forte. E com razão.

"I’d always loved Battersea Power Station, just as a piece of architecture. And I thought it had some good symbolic connections with Pink Floyd as it was at that point:

A) It was a power station, that’s pretty obvious.
B) It had four legs. If you inverted it, it was like a table. And there were four bits to it, representing the four members of the band. But it was upside down, so it was like a tortoise on its back — not going anywhere, really.
I had already started thinking about using inflatables during a live show. Parachuting sheep and floating pigs and all of that. And so I thought why not combine the ideas for the live show with this symbol of a decaying rock group, and put them together? Added to all that, kind of simple stuff about pigs flying, the unlikely nature of that."

Roger Waters

Ainda mais forte, era a primeira ideia de Roger para a capa de "Animals": um rapaz a entrar no quarto dos seus pais, de urso de peluche na mão, apanhando-os a fazer sexo. Segundo Roger: "copulating, like animals!"
Felizmente para nós e para a banda, a ideia que vingou foi a do porco a voar sobre a estação.


O porco original, ao qual foi dado o nome de Algie, foi projectado por Waters e construído em Dezembro de 1976, com mais de 12 metros de comprimento. A ideia era fazer subir o porco a meia-altura das chaminés da estação, fotografar e fazê-lo descer. Para o caso do porco se soltar, os Pink Floyd contrataram um sniper para atirar sobre o insuflável e assim evitar que este voasse, literalmente, sobre os céus de Londres. Com tudo pronto, faltava apenas pôr a ideia em prática.
Porém, a tarefa não se revelou nada fácil. A sessão fotográfica prolongou-se ao longo de 3 penosos dias, em que tudo parecia correr mal.
No 1º dia, com o sniper preparado, e o céu ameaçador, o cenário foi fotografado, mas o porco não subiu.
No 2º dia, o porco subiu, mas uma rajada de vento forte soltou-o das chaminés e, por azar, tinham-se esquecido de avisar o sniper para regressar no 2º dia. Assim, o porco voo mesmo, desaparecendo no horizonte até se atravessar na rota aérea de alguns aviões que iam aterrar no Aeroporto de Heathrow, levando ao cancelamento de vários voos. O porco acabaria por aterrar numa quinta em Kent, a aproximadamente 100 km de distância de Battersea.
O porco foi assim recuperado e reparado para o 3º dia de sessão fotográfica, em que finalmente se conseguiu a tão desejada fotografia. No entanto, neste dia o céu estava azul, faltando-lhe a personalidade que tinha, por exemplo, no 1º dia.
Desta forma, a capa do álbum acabou por ser uma montagem do cenário do 1º dia, com o porco do 3º dia.

O céu escuro e ameaçador na capa de "Animals" reflecte aquilo que ouvimos no álbum. É um casamento perfeito entre a imagem e a música.

P.S.: O próximo post vai continuar a história de "Animals" e fazer a ligação à origem de "The Wall". O mote é uma frase do tema "Dogs", que podemos ouvir em cima:

"Who was trained not to spit in the fan"


Edit : Parte 2 aqui.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Pink Floyd - "Pigs on the Wing (Part I)"

"If you didn't care what happened to me...
And I didn't care for you..."




Quando surgiu a ideia de criar este blog já tinha, à partida, uma lista mental com meia dúzia de histórias que queria contar. Volvidos quase 2 anos e mais de 100 posts depois, algumas das histórias que encabeçavam a minha lista ainda estão enigmaticamente à espera.
Amanhã, vou contar uma delas.

Amanhã, vão voar porcos na Escolha musical do dia.

"Watching for pigs on the wing"

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Tony Bennett & George Michael - "How Do You Keep The Music Playing?"

"I know the way I feel for her: it’s now or never
The more I love, the more that I’m afraid, that in her eyes I may not see forever"



Hoje sinto-me romântico. Eu sei, é uma grande décalage em relação ao estado espírito de ontem, mas ainda bem. Antes assim. E quando me sinto romântico, o mais habitual é recorrer a George Michael - a minha voz de eleição, no que toca a baladas. Mas se é verdade que ao longo da sua carreira, George tem no seu reportório um imenso lote de grandes baladas, este não é um desses casos. Ou melhor, é uma grande balada, sim, mas não foi composta por ele.

Numa altura em que a carreira de George Michael já se encontrava em fase descendente, Tony Bennett convidou-o para um dueto para o álbum de celebração do seu 80º aniversário.
O tema escolhido foi este "How Do You Keep The Music Playing?", um tema originalmente composto para o filme de 1982 "Best Friends". O filme consistia numa mera comédia romântica dos anos 80, com Burt Reynolds e Goldie Hawn, destinado a ficar esquecido nas traseiras de qualquer videoclube (espera, isso hoje já não existe...), mas isso não impediu que o seu tema principal ganhasse uma vida própria e assim se prorrogasse no tempo.

"How Do You Keep The Music Playing?" foi nomeado para o Oscar de Melhor Canção Original em 1983, tendo perdido para o célebre "Up Where We Belong", do filme "Oficial e Cavalheiro" (nome original "An Officer and a Gentleman"), interpretado por Joe Cocker e Jennifer Warnes.

"How Do You Keep The Music Playing?" fala sobre a dificuldade de manter uma relação duradoura e lidar com o lento abafamento da chama da paixão. Como é que se mantém a música a tocar? É difícil, de facto. Já todos passámos por isso. É difícil e, no entanto, é tão simples:

Rendição: "How do you lose yourself to someone? And never lose your way"
Amizade: "If we can be the best of lovers, yet be the best of friends..."
Adaptação: "Since we know we’re always changing, why should it be the same?"

Pôr isto em prática? Pois, isso já é outra história...

"If we can try with every day to make it better as it grows, with any luck, then I suppose, the music never ends."

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Limp Bizkit - "Break Stuff"

"It's just one of those days
When you don't wanna wake up,
Everything is fucked
Everybody sucks
You don't really know why
But you wanna justify rippin' someone's head off

No human contact and if you interact
Your life is on contract
Your best bet is to stay away motherfucker
It's just one of those days..."



Há dias em que o meu estado de espírito é somente este.

terça-feira, 26 de junho de 2012

Don Henley - "The Boys Of Summer"

"I can tell you my love for you will still be strong, after the boys of summer have gone"



No que à música diz respeito, sou uma pessoa de gostos sazonais. No Inverno, com o frio e o tempo cinzento, sou mais dado a música melancólica e introspectiva, sob conceitos mais dark. Em contrapartida, chegando o Verão e o tempo quente, as minhas escolhas recaem em música mais alegre, ora num tom mais relaxante, ora num tom mais pesado, ou até num tom mais agressivo.

Para dar alguns exemplos desta dicotomia, basta recorrer à discografia de alguns dos meus artistas preferidos. Peguemos no caso dos Pink Floyd, por exemplo: no Inverno, ouço com alguma frequência o álbum "The Wall", mas a partir do momento que chegam os dias soalheiros da Primareva, o álbum "The Division Bell" salta imediatamente da prateleira para a minha aparelhagem.
Já no caso de Bruce Springsteen, no Inverno, a introspecção do álbum "Darkness On The Edge Of Town" é um habitué na minha aparelhagem. Porém, no Verão, é tempo do optimismo de "Born To Run". Dois álbuns que se seguem cronologicamente e que se complementam em estado de espírito.
Em relação aos Queen, os álbuns "Made In Heaven", "Queen II", "Hot Space", ou "A Day At The Races" são alguns dos meus ex-libris sempre que está tempo cinzento lá fora e eu, em casa, estou cheio de camisolas. Já com pouca roupa vestida e o calor com entrada livre pelas janelas, é tempo de "A Night At The Opera", "A Kind Of Magic" e, mais que tudo, do meu álbum preferido de sempre (bem, o que eu fui dizer...) "Live At Wembley '86". Como é que eu ainda não escrevi nada sobre isto é que me escapa... Mas adiante.

Da mesma forma que há álbuns preferenciais de Verão ou de Inverno, o mesmo raciocínio se aplica às bandas.
Para além das bandas mais "pesadas" como os Guns N' Roses, os Deep Purple, ou os Metallica, que ganham invariavelmente o seu tempo de antena no Verão, há uma banda que, num estilo completamente diferente, também aparece sempre com o calor: os Eagles.

Já tive a oportunidade de falar no meu álbum preferido dos Eagles aqui ("One Of These Nights"), mas hoje vou falar sobre um tema da carreira a solo de Don Henley, o baterista da banda.
Para além de baterista, Henley é também um dos principais compositores da banda e ainda foi vocalista num enorme número de temas, com muitos deles a resultarem em êxitos para a banda. É o caso de "Hotel California", "One of These Nights", "Desperado", "Witchy Woman", "Wasted Time", ou "The Long Run". Arrisco até dizer, que os Eagles são conhecidos principalmente pela voz de Don Henley.

O tema é "The Boys Of Summer", escrito por Henley e Mike Campbell (dos Heartbreakers de Tom Petty) e é provavelmente o maior êxito das carreiras a solo de todos os membros dos Eagles, do presente ou do passado, sendo também o temas mais reconhecível hoje em dia.
"The Boys Of Summer" foi o 1º single retirado do álbum "Building the Perfect Beast" de 1984, o segundo trabalho a solo de Henley. Com este tema, Don ganhou um Grammy para Best Male Rock Vocal Performance e o videoclip (em cima), a preto e branco, arrecadou o prémio Best Video of the Year, nos MTV Video Music Awards. Mesmo sendo tempos muito diferentes na MTV (ainda havia música no canal e a música ainda era algo que ali importava), nada mau para um artista que já era veterano na época.

E porquê "The Boys Of Summer", como escolha musical para dar o pontapé de saída do Verão?
- "Bem, é uma música sobre o Verão", dirão alguns de vocês. Correcto.
- "E também é uma ode ao Verão", dirão outros. Errado.

"Nobody on the road, nobody on the beach, I feel it in the air, the summer’s out of reach"

Na verdade, apesar do tema ser sobre o Verão e de ter um vibe de fim de tarde na praia, "The Boys Of Summer" é mais um tema anti-Verão, do que o que pode parecer à primeira vista (ou neste caso, audição).

"Empty lake, empty streets, the sun goes down alone
I’m drivin’ by your house, though I know you’re not home"

Em vez de uma ode ao sol, ao calor e à praia, "The Boys Of Summer" conta-nos a história de um rapaz que perdeu a sua namorada para os sabores e as aventuras vibrantes do Verão, um paradigma contra o qual ele não pode competir. Mas mesmo sabendo que a miúda já fugiu e que tão cedo não voltará (quanto muito só depois do Verão, quando os "rapazes do Verão" se forem embora :) ), o rapaz recorda as boas memórias que os tempos juntos lhe deixaram e promete...

"I can tell you my love for you will still be strong, after the boys of summer have gone"

sábado, 23 de junho de 2012

Bruce Springsteen - "The River" (Live)

"Is a dream a lie if it don't come true? Or is it something worse?"

A música de Bruce Springsteen é feita de histórias. Histórias com personagens, personagens como eu, tu ou qualquer outra pessoa que sinta, sofra e seja self-conscious (perdoem-me o anglicanismo, mas não consegui pensar numa palavra tão adequada em português).
Como nós, essas personagens têm sonhos, sonhos épicos... mas que na realidade nunca resultam como os tínhamos imaginado. Estas personagens foram introduzidas em 1975, no álbum "Born To Run", e acompanharam a música de Bruce ao longo de toda a sua carreira.

Será um sonho uma mentira se não se realizar? Ou será algo pior?

A vida não é um "mar de rosas". Temos que ter, à partida, essa noção, sempre que nos lançamos para um sonho, ou para um novo desafio. Mas a verdade é que, para quem tem uma natureza mais optimista, essa noção não existe e quando a realidade nos cai em cima, o embate é muito mais doloroso.
Será esse um motivo suficiente para deixarmos de sonhar? A resposta é negativa. Pelo menos, não é essa a minha opinião.
Nem é essa a opinião de Bruce Springsteen, cujas personagens (hoje já muito mais calejadas) foram do céu (em "Born To Run", assunto a que voltarei brevemente), ao inferno (em "Darkness On The Edge Of Town"), passaram pela desilusão (em "The River"), ou pela dissolução das suas relações sentimentais (em "Tunnel Of Love"), mas que sempre mantiveram a esperança e... o sonho (a mensagem forte dos álbuns da última década, desde "The Rising" a "Wrecking Ball").

As histórias que Bruce foi contando ao longo da sua carreira não foram um produto de geração espontânea do seu imaginário. Muitas delas tiveram origem em experiências pessoais e foram materializadas em música, de uma forma que todos que passámos por situações semelhantes nos podemos identificar. Como já aqui referi, é essa capacidade única, sem qualquer comparação que eu conheça, que eu tanto admiro nele.

Quando Bruce chegou ao fim da década de 70, já tinha passado pela sua dose de sofrimento, tanto com a família, nos seus anos de adolescente, como com a indústria da música, ao longo da sua carreira.
Os dramas que Bruce enfrentou ao longo da sua carreira, especialmente durante a gravação dos álbuns "Darkness On The Edge Of Town" e "The River", bem como dos que ficaram perdidos pelo meio, já foram aqui abordados.
Só ainda não falei nos dramas que Bruce enfrentou durante o seu crescimento.

E isto leva-me à difícil relação que Bruce tinha com o seu Pai, a qual funcionou como uma das principais forças motrizes da sua inspiração, especialmente na primeira metade da sua carreira.

Bruce não teve uma infância propriamente dramática. Filho de pais operários (a mãe era secretária e o pai fazia um pouco de tudo, para fugir ao desemprego e sustentar a sua família), de classe média e criado segundo uma educação católica rígida, os dramas de Bruce foram os mesmos de todos os adolescentes que tinham ideias diferentes dos pais (principalmente, do Pai) e que queriam seguir um caminho diferente, daquele que por eles tinha sido imaginado.

Afinal, Bruce estava, também ele, a desfazer um sonho do seu Pai.

O pai de Bruce não gostava da sua guitarra (referia-se a ela sempre como a "God-damned guitar") e detestava a ideia de ele fazer daquilo um modo de vida.
As discussões em casa eram uma constante.
Na introdução ao tema "The River", num concerto gravado no LA Coliseum, em Los Angeles, a 30 de Setembro de 1985, Bruce aborda esta tempestuosa relação:

"When I was growing up, me and my Dad used to go at it all the time, over almost anything.
I used to have really long hair, way down past my shoulders, when I was 17 or 18. Oh man he used to hate it...

We got to where we would fight so much that I would spent a lot of time out of the house. In the summertime it was not so bad, because it was warm and your friends were out. But in the winter, I remember standing downtown and it would get so cold... and when the wind would blow I had this phone booth that I used stand in. I used call my girl for hours at a time, just talking to her all night long...
Finally I would get my nerve up to go home, I'd stand there in the driveway and he would be waiting for me in the kitchen... And I'd tuck my hair down in my collar and I'd walk in... and he'd call me back to sit down with him... and the first thing that he always asked me was "What did I think I was doing with myself"?
And the worst part about it was I could never explain it to him.

I remember I got in a motorcycle accident once... I was laid up in bed, he had a barber come in and cut my hair and man... I can remember telling him that I hated him and that I would never ever forget.

He used to tell me:
"I can't wait till the army gets you... When the army gets you, they are gonna make a man out of you! They gonna cut all that hair off and they will make a man out of you!"
And this was in I guess '68... And there was a lot of guys from the neighborhood going to Vietnam. I remember the drummer in my first band coming over to my house with his marine uniform on, saying that he was going and that he did not know where it was. A lot of guys went and a lot of guys didn't came back and a lot that came back weren't the same anymore...

I remember the day I got my draft notice, I hit it from my folks and three days before my physical, me and my friends went out and we stayed up all night. We got on the bus to go that morning... Man, we were all so scared...
And I went... and I failed.

I remember coming home after I had been gone for three days, walking in the kitchen and my mother and father were sitting there and my dad said: "where you been?".
I said: "I went to take my physical."
He said: "What happened?"
I said: "They didn't take me"
And he said... "That's good.""




Bruce Springsteen é um óptimo contador de histórias. Esta, em especial, deixa-me sempre debaixo de um arrepio na espinha, principalmente no fim.
Afinal, o durão do Pai, que queria que o filho fosse um duro como ele, que queria que o exército o "amansasse", que queria que ele cortasse o cabelo, largasse a guitarra e fosse estudar Direito... Afinal, o Pai só queria o melhor para ele. O Pai amava-o e tudo o que fazia era na certeza que era o melhor para o filho. E estava no seu direito.
Porque afinal, Bruce estava, também ele, a desfazer um sonho do seu Pai.

Quando Bruce viu o alívio do pai, na altura que descobriu que o filho não vai para a guerra, terá sido aí que se apercebeu que tudo aquilo é o amor duro de um Pai. Tough love is, after all, true love.

O mais engraçado nisto tudo? É que Bruce se tornou, à sua maneira, de uma reflexão do seu Pai. Uma imagem reflectida num espelho diferente.
Bruce vestia-se com as roupas do seu Pai, cantava sobre as dificuldades da classe operária (que ele viu e viveu enquanto jovem) e assim tornou-se num estandarte da working class americana.
O Pai de Bruce queria que ele se tornasse um advogado, mas o que Bruce se tornou foi não mais que... o seu Pai, em cima de um palco.
Bruce falou sobre isso numa entrevista à Rolling Stone:

"When I went to work, I really went to work in my dad's clothes, and it became a way, I suppose, that I honored him and my parents' lives, and a part of my own young life. And then it just became who I was."

No fim de contas , apesar de não se dar com o seu pai durante o seu crescimento (e mostrou isso em temas como "Adam Raised A Cain"), Bruce acabou por reconhecer o mérito do trabalho árduo que o seu Pai tinha entre mãos, como "chefe" de uma família que não lhe deu facilidades.

Como em tantas outras ocasiões, a mensagem de Bruce ressoa na minha cabeça, como se estivesse a falar para mim.
Felizmente, não creio que o meu crescimento tivesse sido feito numa colisão tão forte com o meu Pai, até porque, ao contrário de Bruce, eu acabei por me tornar naquilo que ele desejava. Mas isso não significa que tenha sido fácil.
Os choques entre Pai e Filho em minha casa eram também frequentes e não raras vezes, muito duros. Mas como já referi aqui, tudo o que eu queria ser, afinal, era como o meu Pai.
Uma imagem reflectida num espelho diferente.



P.S.: Com isto tudo, ao fim de 12 parágrafos, acabei por nem abordar o tema "The River" e a sua história, para além da "realização do sonho". É uma pena, porque há muito mais para dizer. Ficará para outra ocasião.