domingo, 17 de junho de 2012

Mihály Víg - "A Torinói Ló"



Hoje vou mudar um pouco a agulha ao blog.
Já há algum tempo que tenho a vontade de fazer uma "Semana de Cinema". Isto é, uma semana temática (à semelhança do que fiz com a "Semana Elton"), dedicada às minhas bandas sonoras preferidas.
Infelizmente, tal como um rol de outras ideias, isso ainda não foi materializado por manifesta falta de tempo. E infelizmente também, ainda não será desta.
Porém, ainda antes de levar esse conceito mais a sério, não resisto a falar do filme que assisti ontem no cinema: "O Cavalo de Turim" (nome original "A Torinói Ló").
Mais que um filme, uma obra de arte.

"A Torinói Ló" é o filme de despedida do cineasta húngaro Béla Tarr (assim anunciado pelo próprio, que afirma nada mais ter para dizer), nos últimos tempos recorrentemente aclamado como um dos grande mestres do cinema moderno.

Não é fácil falar de "A Torinói Ló". Não é fácil, porque o filme pode ser analisado por diversas perspectivas diferentes.
Podemos falar da fotografia, que é de uma beleza meticulosa; da música, que com um tema apenas de Mihály Vig, em constante repetição, assume um papel fundamental na mensagem do filme; da acção, quase inexistente e numa "quase-repetição", com pequenas nuances, também fundamentais na percepção da referida mensagem; dos metaforismos, que estão por todo lado, igualmente fundamentais na interpretação do filme; da fortíssima carga religiosa (ou melhor, de negação da religião) que o filme parece carregar.
Enfim, poderíamos falar de tanta coisa, que falar de "O Cavalo de Turim" daria para uma tarde de discussão e poderia resultar numa longa dissertação.

Para já, ainda abanado com a carga emocional que o filme despeja no espectador, digo apenas que foram 2 horas e meia de belíssimo cinema.
Cinema difícil, mas belíssimo.

A espaços, chega a ser "secante". É preciso ter estômago, paciência e não levar sono para a sala.
Mas quem estiver disposto a contemplar 2 horas e meia da melhor cinematografia (de um verdadeiro deleite para os olhos), onde se metaforiza sobre o abandono a que Deus vetou o Mundo e as pessoas que o habitam... Vale muito, muito o esforço.
O meu valeu, com toda a certeza.

"A Torinói Ló" é um filme de 150 minutos, a preto e branco e com muito pouco diálogo.
Objectivamente, não é um filme de fácil visualização e não é para todos. Não é um filme de "pipocas e coca-cola", vivendo numa filosofia de antagonismo com o cinema americano a que estamos habituados. Quando fala à imprensa, Béla Tarr deixa isso bem claro e não se coíbe de malhar no cinema do circuito comercial:

‎"I always had in mind that the audience is intelligent, sensitive and will understand – so I always did my best.
I can’t do some piece of shit because it’s just for kids.
The showbiz guys treat the audience as children, and they say this shit is good enough for them. Not true.
I respect the viewer. I respect my work. And I want to protect it. That means protecting it from me too…"

Para Béla Tarr, a cinematografia é tudo. Muito parcos em acção ou enredo, os filmes do realizador húngaro são o exemplo mais acabado daquilo que eu chamo de "filmes contemplativos". Se há filmes que merecem ser vistos no ecrã de cinema, esses são os de Béla Tarr.

Os planos nos seus filmes são longos, longos, longuíssimos, a desafiarem a calma do espectador mais paciente, mas valem pela sua beleza e pelo seu significado.
Para terem uma ideia do que estou a falar, "O Cavalo de Turim" tem a duração de 2 horas e meia (150 minutos) e apenas 30 planos. Isto equivale a uma média (repito: média!) de 5 minutos por plano. Tendo em conta que a média "normal" de duração de um plano é de cerca de 5 a 10 segundos, 300 segundos por plano é algo que, como referi, testa a paciência do espectador.
Conclusão: não convém levar sono para a sala de cinema.

Contas à parte, não é por acaso que Béla Tarr é quase unanimemente considerado, entre os cinéfilos, como um dos mais brilhantes realizadores da actualidade. Por isso, não admira que a chegada de "O Cavalo de Turim" às salas de cinema portuguesas tenha sido recebida com êxtase por toda a crítica de cinema portuguesa: no DN (por João Lopes e Flávio Gonçalves), no i, na RTP, no Ípsilon (Público), no C7nema, ou no Sétimo Continente.
Note-se que "O Cavalo de Turim" é o primeiro filme de Béla Tarr a estrear em Portugal. Não deixa de ser curioso que o primeiro filme do húngaro a chegar a Portugal seja o último capítulo da sua obra.
Da minha parte, o meu muito obrigado à Midas Filmes, por trazerem a Portugal, finalmente, os filmes de Béla Tarr.
Já não era sem tempo.

Em baixo está a cena de abertura de "A Torinói Ló", em que o narrador conta a história que serve de mote à acção do filme, seguida de uma sequência fabulosa, das mais belas que já vi no cinema, em que vemos "O Cavalo de Turim" (na realidade é uma égua) a puxar uma carroça ao som da hipnótica banda sonora de Mihály Vig.
Lindo, lindo, lindo.



Neste clip podemos ouvir toda a banda sonora que Mihály Vig compôs para "A Torinói Ló". Um só tema, que é repetido até à exaustão ao longo do filme. Um só tema que, com a sua melancolia, aperta mais e mais o coração e permanece na nossa cabeça, num teimoso loop depois do filme terminar, durante dias, semanas a fio...

"Hogy a lóval mi lett, nem tudjuk" (Do cavalo, nada sabemos)

O filme parte de um evento histórico: o cavalo que Friedrich Nietzsche viu ser espancado em Turim e depois do qual o filósofo fica traumatizado, perdendo a razão e a fala durante os 10 anos que se seguiram, culminando na sua morte. Este episódio não está relacionado com o que vemos no filme. Nietzsche está ali, mas apenas a nível filosófico.
Depois deste evento, o cavalo regressa a casa com o seu dono e o filme disseca até ao mais pequeno detalhe a vida vazia do cavalo, do dono e da sua filha.

A acção do filme é de tal forma minimalista, que somos obrigados a agarrar nos mais pequenos pormenores para conseguir "ligar os pontos" e perceber qual é, afinal, a mensagem de Béla Tarr.
Béla Tarr deu uma pista e revelou que "A Turin Horse" era uma reflexão sobre o "peso da existência humana". O "insustentável peso do ser".

A minha interpretação é que o filme é, essencialmente, uma reflexão religiosa. Ou melhor, uma reflexão niilista sobre a religião. O vazio da vida, para além daquilo que nós fazemos dela. Uma tese da descrença em qualquer fundamentação metafísica para a existência humana. Uma ilustração do tal "peso da existência humana".

A religião aparece em várias pistas que Béla Tarr vai dando ao longo do filme, como no monólogo do vizinho que aparece para pedir a Palinka, ou no livro que um cigano deixa à filha.
O abandono de Deus à humanidade. Como disse Nietzsche: “Deus morreu, mas a natureza humana é de tal ordem que é muito provável que, durante milhares de anos, haja grutas em que a sua sombra continuará a ser vista.”
Deus abandonou esta família numa "ilha" rodeada por uma tempestade inultrapassável. A "ilha" (na realidade, uma casa isolada, perdida no meio do nada) vai morrendo lentamente ao longo do filme, caminhando, tal como os seus habitantes, em direcção ao vazio, ao nada (em latim nihil, ou seja, "niilismo"). O caruncho que deixa de roer, o cavalo que deixa de comer, o poço que seca, a tempestade que redunda no silêncio, o preto e branco que redunda no... preto. E no final, a escuridão.

"Teljes csend borul a házra is.

VÉGE"

domingo, 10 de junho de 2012

James - "Getting Away with It (All Messed Up)"

"We're getting away with it all messed up. That's the living..."



Já se passou uma semana desde o fim do Rock In Rio e só agora a "poeira" começa a assentar. Agora é tempo de balanço.
Na memória recente ainda gritam ecos de alguns grandes momentos, encabeçados pelo lendário concerto de Bruce Springsteen & The E Street Band, dia 3, faz agora mesmo uma semana.

Mas nem só de Bruce Springsteen viveu o Rock In Rio e nem só da E Street Band se fez o dia 3 de Junho.
Às 20:30, entraram em palco os James e deram um dos mais enérgicos, mais surpreendentes concertos do festival.
É verdade que existe uma relação especial entre os James e o nosso país. Como uma banda indie rock de Manchester, os James sempre foram caso de sucesso nas ilhas, mas de sucesso mais moderado na Europa e nos EUA. Portugal surge como um caso particular, onde quase todos os seus singles foram passando com regularidade nas rádios e os álbuns foram vendendo com alguma consistência (especialmente o "Best Of" de 1998).
Como resultado, há um lote considerável de temas que são amplamente conhecidos pela audiência portuguesa: "Sit Down", "Laid", "Sometimes", "Born Of Frustration", "Destiny Calling", "Getting Away With It"... e por aí fora. Percebe-se que os James facilmente dão um espectáculo só com êxitos familiares ao público português e por isso não é de estranhar que a banda passe cá com alguma frequência.

Foi por isso com alguma surpresa, que assisti ao concerto "arriscado" dos James no Rock In Rio Lisboa. Com uma "slot" reduzida de hora e meia ao final da tarde, os James optaram por não ir pelo caminho fácil dos êxitos e pincelaram o seu concerto com uma série de faixas menos conhecidas, algumas tiradas mesmo do fundo do baú.
E ganharam a sua aposta. Os James estiveram com o público e o público, não obstante o risco, esteve com os James. Grande concerto.
Eis a setlist (com vídeos, sempre que disponíveis):

1. "Whiteboy"
2. "Ring The Bells"
3. "Laid"
4. "She's A Star"
5. "Getting Away With It (All Messed Up)"
6. "Out To Get You"
7. "Johnny Yen" (com discurso de Tim Booth sobre a primeira vez que viu Bruce Springsteen & The E Street Band)
8. "Stutter"
9. "Sound"
10. "Tomorrow"
11. "Sometimes"
12. "Sit Down"

O tempo de antena dos James era curto e, por isso mesmo, não esperava ouvir temas "Johnny Yen", ou "Stutter" (do álbum de estreia da banda "Stutter", de 1986), ou os menos conhecidos "Sound", ou "Out To Get You".

No meio do set, apareceu um dos temas que eu mais esperava:



Quando ouvi os primeiros acordes de "Getting Away with It (All Messed Up)", fui directamente transportado para o Verão de 2001. A rádio nas tardes de trabalho, ou o Curto Circuito nas tardes de preguiça no sofá. No meio da miríade do Nu Metal que vigorava na época, este tema era uma lufada de ar fresco.


 


"Getting Away with It" foi o single de avanço do álbum "Pleased To Meet You", de 2001.
"Pleased To Meet You" foi bem recebido pela crítica, mas foi anunciado como o último álbum dos James, depois do qual o vocalista Tim Booth deixaria a banda. Adequadamente, foi promovida uma bem sucedida digressão de despedida e Tim deixou mesmo a banda, lançado um álbum a solo ("Bone"). Mas em 2007, Tim Booth voltou aos James e ainda bem. Desde então, este foi o meu segundo concerto e a banda esteve sempre impecável.

No Crato, em 2008, foi assim:



Depois de terminado "Sometimes", o público alentejano (e não só, como é óbvio) continuou a cantar e só se calou porque entretanto os James regressaram para o Encore.
Eu estive lá no meio, onde tudo aconteceu. E que afinados estávamos!

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Bruce Springsteen & The E Street Band - "Spirit In The Night" (Live in Lisboa 2012)

‎"Trust some of this, it'll show you where you're at, or at least it'll help you really feel it"

Nota prévia: Se não estão preparados para (mais) um texto cheio de superlativos e loas a Bruce Springsteen e à sua E Street Band, devem abandonar desde já este espaço. Aqui, sempre se adorou, adora-se e vai continuar a adorar-se o Boss.

Segunda nota prévia: Por volta das 21:30 de ontem, a meio do concerto dos James no Palco Mundo, o vocalista da banda - Tim Booth - deu o mote para o que se passaria umas horas mais tarde. Com aquele seu ar sério de ex-presidiário na tentativa de reinserção na sociedade, Tim Booth contou uma história que se passou com ele e que terá marcado o fim da sua adolescência "rebel without a cause":

"I was a 16 years old punk rocker, all my role models were self destructive.
I was into the Sex Pistols and Iggy Pop and a 100 other tortured artists who wished to come on stage and cut themselves for people's entertainment.
And then... when I was 17, a friend of mine bought me a ticket to see a concert in Birmingham, in England. I didn't wanna go, because I didn't like the guy's music. And they dragged me along to this guy's concert in Birmingham and after the 3rd song, I was standing up with the biggest smile on my face.
That was Bruce Springsteen & The E Street Band. That was the "Born To Run" tour.
They showed me another kind of artist that doesn't have to burn himself out... That doesn't have to cut themself for people's entertainment.
They showed me a new way of being onstage.
So it's a great pleasure to be here this evening, with you and with them.
We need more role models like Bruce Springsteen.
I needed one."

Bruce Springsteen & The E Street Band ao vivo, como uma life changing experience. Onde é que eu já ouvi isto?
De uma maneira ou de outra, esta é uma história cujos contornos são comuns a milhares de pessoas em todo o Mundo e que ontem foi partilhada por muitas outras.

Isto ignorando o facto que Tim Booth se trocou todo nas datas e/ou nos locais, uma vez que a E Street Band tocou pela primeira vez em Birmingham (UK) em 1981, na digressão de promoção ao álbum "The River". Na digressão de "Darkness On The Edge Of Town" (1978-1979), Bruce não saiu do espaço EUA / Canadá, por falta de verbas. Nas digressões de "Born To Run" (1974-1977), Bruce foi, efectivamente ao Reino Unido (Tim fez 17 anos em 1977), mas tocou apenas em Londres, no lendário Hammersmith Odeon.


Loas a Bruce Springsteen? Este espaço está longe de estar sozinho.
Especialmente desde ontem à noite, quando Bruce Springsteen trouxe finalmente a lendária E Street Band a Portugal. Depois do espectáculo sensaborão de Alvalade em 1993, com a Other Band (sim, a "outra" banda de Bruce foi mesmo baptizada de... Other Band), havia uma clara onda descrente em relação ao Boss no nosso país. Até ontem. Ou melhor, até hoje, porque o Boss demorou a chegar e quando entrou no Palco Mundo do Rock In Rio Lisboa 2012, já passavam das 0:00 de 4 de Junho.

Bruce demorou, mas quando chegou, não defraudou as expectativas e deu aquele que para mim foi o MELHOR (e mais longo?) concerto do festival. Como já esperava, foi mais que um concerto, foi uma experiência.

Por onde é que eu hei-de começar? Vou ter que escrever qualquer coisa sobre o que presenciei, mas não sei ao certo o quê, uma vez que ainda estou em êxtase pós-orgásmico.
Foram 2 horas e meia de masturbação emocional colectiva. Um turbilhão de emoções. Milhares de vidas que nunca mais serão as mesmas. Porque a partir de ontem, para essas pessoas houve qualquer coisa lá dentro que mudou, uma emoção que acordou.
Tal como aconteceu com Tim Booth, na sua juventude. Tal como aconteceu com o meu melhor amigo que, tal como acontecera com Tim Booth, também eu "arrastei" para o concerto de ontem. E tal como Tim, também ele, ao fim do 3º tema, deu por ele com um sorriso idiota na cara.
São muitos anos a arrancar sorrisos a carrancudos.
É o Boss. É inigualável.

Mas reitero: desde as 2:30 de hoje, que este espaço deixou de estar sozinho em Portugal.
Ao longo do dia, a imprensa multiplicou-se em loas ao Boss, elegendo a sua actuação como o grande concerto do Rock In Rio 2012. Mas não só. Hoje já li críticas que vão desde “o concerto do Rock In Rio”, passando pelo “concerto do ano”, até ao “concerto da década”.
Para ver alguns exemplos: aqui, aqui, aqui, aqui, ou aqui.
Como disse ontem Bruce, após arrancar um surpreendente "Twist And Shout" para fechar o concerto (até ontem "Tenth Avenue Freeze Out" tinha sido sempre o último tema): "You've just experienced the legendary E Street Band!". Indeed we did.

Ninguém se pode queixar que não foi avisado.
No início do concerto, como é seu hábito, Bruce profetizou a missão da E Street Band. Na introdução de "Spirit In The Night" - um dos meus temas preferidos de Bruce, do seu álbum de estreia de 1973: "Greetings From Asbury Park, NJ" - Bruce revelou ao que vinha:

"The E Street Band has come thousands of miles, just to be here in Lisbon tonight.
And we've come here on a mission!
We're gonna bring the power! We're gonna bring the glory! We're gonna bring the fun! We're gonna stimulate your sexual organs, with the power of Rock N' Roll!
Can you feel the spirit? Can you feel the spirit now?"



E assim foi.
Depois de 3 dias consecutivos de Rock In Rio, hoje estou de rastos. Sem voz, com a garganta rebentada e já não sinto pernas, pés e costas.
Estou mais morto que vivo, mas estou feliz. Com o tal sorriso idiota na cara.

Obrigado por tudo, Bruce. Vemo-nos por aí, numa estrada qualquer. De preferência brevemente.

"Together we move like spirits in the night!"

domingo, 3 de junho de 2012

Bruce Springsteen - "Land Of Hope And Dreams"

"You don’t know where you’re goin’ now, but you know you won’t be back"



É HOJE!
E pronto, é hoje que o Rock In Rio chega ao fim, despedindo-se da melhor forma, com o regresso do Boss a Portugal, pela primeira vez com a sua E Street Band. É o mais esperado (por mim, obviamente) concerto do Rock In Rio.

Como não poderia deixar de ser, as minha expectativas estão em alta.

‎Começo por dizer que Bruce Springsteen é o meu "artista a solo" (por oposição a "banda") preferido. Não só pela sua música per se, mas mais até pela poder da mensagem que ele transmite. Porque a música é um veículo de emoções, ninguém sabe transmitir melhor uma emoção que Bruce Springsteen.

Bruce Springsteen toca-me em especial porque a sua música descreve situações reais, emoções reais, com as quais eu (e milhões de outras pessoas) me posso identificar. E não é para isso que a música serve?

Acima de todas as outras qualidades que Bruce, como artista, pode carregar, esta é a que o distingue de todos os outros: a capacidade de materializar o sofrimento de um homem, as suas dúvidas e fraquezas, os seus anseios e dilemas, num pedaço de música. Com Bruce, é possível agarrar num disco e dizer "aqui mora a verdadeira dimensão do sofrimento de um homem".

Há um tema em particular, do qual eu já falei aqui, que ilustra a minha argumentação. Chama-se "The Promise" e é o meu tema preferido de Bruce.
É este o tema que eu desejo, em especial, que Bruce toque hoje à noite. Há muitos outros, como é óbvio, mas esta é especial. É o fecho de um ciclo.

Mas nem só de sofrimento vive a música de Bruce Springsteen.
A música de Bruce Springsteen é também sinónimo de redenção e de esperança.
E é isso que ouvimos em "Land Of Hope And Dreams": a celebração da redenção e dos sonhos de uma reviravolta para um futuro mais risonho.

"This train, dreams will not be thwarted
This train... Faith will be rewarded
This train... The steel wheels singing
This train... Bells of freedom ringing"

Agora impõe-se a questão... O que é que nos espera no concerto de hoje do Boss?
A verdade é que é extremamente difícil prever a setlist de um concerto de Bruce Springsteen, uma vez que este nunca repete um alinhamento e estreia temas novos todas as noites.
O conceito de um concerto de Bruce é tocar à medida da resposta do público, tanto em termos de duração do espectáculo, como na escolha dos temas. Ora, tendo em conta que o seu reportório é muitíssimo vasto, torna-se virtualmente impossível adivinhar o que se vai passar a seguir.
Porém, existem alguns padrões e só mediante uma análise estatística podemos (vagamente) prever o que se vamos ouvir hoje à noite.

Até ao momento, na digressão de promoção ao álbum "Wrecking Ball", Bruce já deu 29 concertos, 9 dos quais na Europa (as setlists integrais estão aqui). Esta distinção é fundamental, uma vez que há determinados temas que Bruce toca preferencialmente nos EUA e na Europa.
Assim, no conjunto da digressão, estes foram os temas que Bruce mais tocou:


Desde que chegou à Europa, Bruce abandonou muitos dos habitués americanos, como é o caso de "American Skin (41 Shots)" (felizmente, uma vez que é dos poucos temas de Bruce que não aprecio). Na Europa, os temas que Bruce mais tocou foram:


Olhando para ambas as tabelas, nota-se que há uma viragem para temas mais comerciais, com especial ênfase no álbum "Born In The U.S.A.", de 1984. Isto é visível analisando a estatística do número de vezes que temas de cada álbum foram tocados, no conjunto da digressão e apenas na Europa:


Com isto, voltamos à pergunta inicial: o que esperar do concerto de Bruce?
Como podemos ver nas tabelas em cima, há uns temas que ele toca sempre e outras quase sempre. A base é o novo álbum ("Wrecking Ball"), complementado com alguns êxitos no fim e uns fan favorites pelo meio.

Esta é a minha aposta para o que vamos ouvir hoje, com a escala cromática do vermelho (slots de maior variabilidade, impossíveis de adivinhar), passando pelo amarelo torrado (alguma probabilidade), o amarelo (muito provável), até ao verde (temas que vão ser tocados com quase toda a certeza).


Ao lado está a setlist que eu, realisticamente, gostaria de ouvir. Escusado será dizer, que se fosse eu a escalar o alinhamento, este seria muito mais leve em temas do novo álbum e muito mais pesado em álbuns como "Darkness On The Edge Of Town" e "Born To Run".
Mas a verdade é esta: nunca se sabe. E esse é um dos factores mágicos de um concerto do Boss.

É HOJE!!!

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Lenny Kravitz - "Let Love Rule"

"We got to let love rule!"



aqui referi que o momento que aguardo com mais expectativa neste Rock In Rio é a chegada de Bruce Springsteen, ao leme da sua E Street Band.
Mas nem só de Bruce se fará o Rock In Rio... Se Domingo é do Boss, Sábado é do Master (Soul)Blaster (lá chegarei brevemente!) e Sexta... Sexta é do Lenny!
Finalmente Lenny Kravitz! Finalmente, porque desde a digressão de promoção ao álbum "Lenny", em 2002 (já lá vão 10 anos!), que tento apanhar um concerto dele, mas por alguma razão, tal nunca se concretizou.

Desde o primeiro álbum ("Let Love Rule") lançado em 1989, Lenny já leva uma carreira de respeito, com mais de 20 anos. Quando Lenny apareceu, numa altura em que o paradigma musical se polarizava entre as bandas de hair metal e o Europop / Eurodance (que iria dominar as tabelas nos early 90's), Lenny estava claramente deslocado da onda das massas. Mas mesmo assim conseguiu o seu espaço.

A crítica achou que Lenny não trazia nada de novo e o seu estilo foi classificado de derivativo.
De facto, tudo o que ouvíamos nos primeiros álbuns de Lenny parecia familiar: as guitarras soavam como Jimi Hendrix, o baixo tinha o groove do Funk e os instrumentos de sopro pareciam directamente saídos de um disco da Motown. Tudo isto fundido no Rock, com uma produção retro, que reproduzia a sonoridade dos discos dos anos 60 e 70.
Tudo isto era familiar, mas tudo isto era novo. Tal mistura não era, de todo, habitual e só podia estar ao alcance de um grande músico.
Lenny era, nesta fase, claramente um peixe fora de água.

O sucesso mainstream veio um pouco mais tarde com o álbum "Are You Gonna Go My Way" (o riff do tema-título é fantástico, um momento abençoado de Lenny) e com o Rock mais "puré de batata" do álbum "5" no final dos anos 90, que o propagou pelas ondas de rádio, um pouco por todo o Mundo.

Os anos passaram e Lenny nunca mais recuperou o edge do início da sua carreira.
Ele chega agora ao Rock In Rio e a minha maior expectativa reside, obviamente, nos clássicos.
É o caso de "Let Love Rule", o tema-título do primeiro álbum de Lenny. Um hino ao amor. "Let Love Rule" indeed, Lenny. Subscrevo. É a única maneira de viver.

"Love transcends all space and time..."

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Bruce Springsteen & The E Street Band - "Working On A Dream" (Live Hyde Park 2009)

"I'm working on a dream, though sometimes it feels so far away"



Começou na passada 6ª feira o Rock In Rio Lisboa 2012. São dois fins-de-semana de grande concertos, que culminam naquele que é, para mim, o mais esperado concerto ano. Falo obviamente de Bruce "The Boss" Springsteen, que traz a Portugal, pela primeira vez, a E Street Band. Infelizmente tarde demais para o público português ver o saxofonista Clarence Clemons e o teclista Danny Federeci, membros originais da banda, já falecidos entretanto.
Mas isso não parece abalar a energia do Boss.

Bruce têm andado a espalhar a sua magia pela Europa e nos últimos dias deu concertos que quase bateram a marca das 3 horas e meia. Leram bem: 3 horas e meia!! Para um rockeiro que já conta com 62 anos, isto é um feito, no mínimo, notável.

É fácil perceber que as minhas expectativas estão a bater nos limites.
Porque um concerto de Bruce Springsteen & The E Street Band é muito mais que um concerto: é uma life changing experience. E, acreditem, não sou só eu que o digo. Basta fazer uma simples pesquisa na internet para perceber que este é o mais comum dos relatos após o "baptismo" da E Street Band.

Obviamente, eu também tenho a minha estória de baptismo.
Foi no dia 2 de Agosto de 2009, no Monte do Gozo, a poucos quilómetros de Santiago de Compostela, que eu assisti a um dos melhores concertos da minha vida. Foi muito mais que um concerto, foi uma experiência, foi o meu baptismo da E Street Band.

O concerto marcava o ponto final da longa digressão europeia, de promoção ao álbum "Working On A Dream". Bem... De promoção ao álbum, o concerto teve pouco, uma vez que Bruce despachou "Outlaw Pete" e o tema-título "Working On A Dream" logo no início e depois foram mais de 3 horas de clássicos, sobre clássicos. Um must.
Nessa noite ameaçada pela chuva, eu carregava uma gripe já em fase implacável, mas nada disso impediu que se tornasse uma das noites mais memoráveis da minha vida.

Foi ali, naquele belíssimo auditório natural do Monte do Gozo (onde não puderam entrar milhares de pessoas com bilhete na mão, porque os organizadores foram gananciosos e venderam mais 10 000 bilhetes do que podiam), que eu percebi do que se tratava. Qualquer pessoa que goste de ver um concerto Rock não deve viver sem ver pelo menos uma vez a E Street Band em acção.
É qualquer coisa de inexplicável.

O vídeo que eu deixo aqui hoje foi filmado num concerto um mês antes de Compostela, no festival Hard Rock Calling em Londres. Nesta interpretação de "Working On A Dream", o tema mais forte do álbum que Bruce promovia na altura, o Boss faz um longo interlúdio onde explica quem são a E Street Band e ao que vêm.
O momento é arrepiante e eu deixo aqui a transcrição do discurso, que ilustra a missão a que a E Street Band se propõe:

“The E Street Band has come thousands of miles to fulfil their solemn vow to ROCK THE HOUSE!
But we didn’t come all this way tonight just to ROCK the house… We came here tonight because we wanna BUILD a house!
We’re gonna take the FEAR that’s out there and we’re gonna build a house of LOVE!
We’re gonna take the DOUBT and we’re gonna build us a house of FAITH tonight!
We’re gonna take the DESPAIR and we’re gonna build us a house of HOPE!
We’re gonna take all the BLUES that’s out there and that’s in you and we’re gonna build us a house tonight of JOY and HAPPINESS! Because that’s our job…
And we’re gonna take the COOLING OFF and we’re gonna build a house of SEXUAL HEALING!
That’s right, oh yes we will! And we got all the tools we need right here on this stage and on this lawn tonight… And when we build that house, we’re gonna use the bad wood and we’re gonna use the good wood! And we’re gonna use the bad news that’s out there tonight and we’re gonna use the good news that’s in here tonight…
Now, to build a house out of music and out of spirit and out of noise… Well, the mighty E Street Band is here tonight and we’re gonna bring down the power of the music on you!"


Pela minha parte, cá os espero no Domingo, com as expectativas nos píncaros.
Vem, Boss! Vem e traz tudo! Eu estou preparado. :)

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Donna Summer - "She Works Hard For The Money"

"She works hard for the money, so you better treat her right!"



RIP Donna Summer, a proclamada "Rainha da Disco".

Fica aqui o meu tema preferido da Donna: "She Works Hard For The Money".
O tema tem uma clara injecção Rock, com um proeminente solo de guitarra. Talvez ainda ecos do álbum Disco que mais marcou os anos 80, lançado no ano anterior pelo, na época, também proclamado "Rei da Disco" Michael Jackson. Falo, obviamente, de "Thriller" e de temas como "Beat It", onde Eddie Van Halen foi chamado para um solo de guitarra que "fez" o tema.

Citando o sempre eloquente Slash:

"Although I pretty much loathed Disco, I always thought she was pretty cool."

Tal como para o Slash, o Disco não é bem a minha praia. Mas isso não significa que não consiga apreciar alguns trabalhos neste registo.
Como vimos, "She Works Hard For The Money" chegou apropriadamente numa fase já pós-disco. É 80's em estado puro. E é óptimo.