terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Simple Minds - "Theme For Great Cities"



Tal como prometido, hoje volto aos Simple Minds, para falar um pouco do período mais obscuro e mais fascinante da banda: os primeiros álbuns.

Desde "Life In A Day" em 1979, a "New Gold Dream (81-82-83-84)" em 1982, a sonoridade dos Simple Minds conheceu uma lenta e gradual evolução interessantíssima. Quando ainda eram apenas uma banda de culto, mais influenciável que influente, os Simple Minds foram moldando a sua música à imagem do que ia acontecendo à sua volta.

Nascendo da onda post-punk, os Simple Minds embarcaram na típica metamorfose para a New Wave / Electro Pop, pela qual outras bandas da época também passaram, caso dos Joy Division / New Order.
Foi uma evolução osmótica, de acordo com o que estava "na berra", mas sempre mantendo uma sonoridade muito característica, fruto das texturas construídas entre as sequências nas teclas de Mick MacNeil, as pulsantes linhas de baixo de Derek Forbes e a guitarra ambiente de Charlie Burchill. Uma secção rítmica invejável e uma combinação que ajudaria os Simple Minds a encontrarem o "seu som", algures entre 1981 e 1982, na véspera da gravação do álbum "New Gold Dream (81-82-83-84)". Seria essa matriz, com uma coloração mais radio friendly que daria aos Simple Minds os seus grandes êxitos em meados dos 80.

O que a maioria do público não sabe, é que o sucesso comercial para os Simple Minds só foi atingido entre o 6º e o 7º álbum, com a banda sonora de "The Breakfast Club" e "Don't You (Forget About Me)". O que ouvem em "Alive And Kicking" é o resultado polido de um amadurecimento que durou muitos anos e foi expresso em diversos álbuns. O sucesso dos Simple Minds foi tão grande por alturas de 1985/1986 (arrisco dizer que, na altura, eles eram maiores que os U2), que tudo o que se passou antes ficou esquecido pela banda e desconhecido pelo público.

Mas vamos então recuar ao princípio.

Os Simple Minds são uma banda escocesa formada em Novembro de 1977 por Jim Kerr (na voz) e Charlie Burchill (na guitarra), depois de terem dissolvido a sua banda Punk: os Johnny and the Self Abusers.
Kerr e Burchill queriam seguir numa direcção diferente e para isso foram buscar o nome da sua nova banda ao verso do tema de David Bowie "Jean Genie": "He's so simple minded, he can't drive his module". A escolha do artista já fazia adivinhar para onde iam os Simple Minds.


Foi preciso esperar 1 ano para a banda conseguir entrar entrar em estúdio e gravar o seu 1º álbum "Life In A Day", um álbum Post-Punk visto por muitos fãs como uma falsa partida. Apesar de alguma oscilação qualitativa, já se vislumbram momentos interessantes neste álbum, como o tema-título, "Chelsea Girl" (ambos lançados em single), ou o épico "Pleasantly Disturbed".


"Life In A Day" trouxe-nos boas indicações, mas é no 2º álbum "Real to Real Cacophony", de 1980, que os Simple Minds mostram ao que vêm. Com experimentalismos à volta de loops sombrios, as influências de Bowie e da sua trilogia de Berlim começam a ser aqui mais visíveis, de tal forma que por vezes penso que o 2º álbum deveria ser chamado qualquer coisa como "Music inspired on Low"... o que não tem que ser algo mau.


Continuando na sua transição electrónica, em direcção ao New Wave europeu, o 3º álbum "Empires And Dance", de 1980, parece ir buscar influências à base de sempre dos pioneiros electrónicos: a Alemanha e bandas como os Neu!, ou os Kraftwerk.
O álbum "Empires And Dance" impressionou de tal forma Peter Gabriel - na altura também entusiasmado com a revolução electrónica do início dos anos 80 - que este resolveu convidar os Simple Minds para o acompanhar na sua digressão europeia.


O ano de 1981 marcou mais um ponto de viragem para os Simple Minds. Depois de assinarem pela Virgin, uma editora que os poderia levar a mais altos voos (e levou mesmo), a banda entrou em estúdio motivadíssima e gravou um impressionante lote de música, tanto em quantidade como em qualidade. Um lote tão grande que era suficiente para um duplo álbum, uma ideia que não foi muito bem vista pela editora, vinda de uma banda ainda sem créditos firmados.
Mas os Simple Minds pareciam estar melhores que nunca e assim nasceu a ideia de lançar dois álbuns simultaneamente: "Sons and Fascination" e "Sisters Feelings Call".
O mais coerente "Sons and Fascination" seria o cabeça de cartaz e "Sisters Feelings Call", composto por sobras do primeiro, seria lançado apenas em edição limitada, juntamente com "Sons and Fascination".
O tempo acabaria por ditar que ambos os álbuns fossem vistos (e lançados) como apenas um só: o 4º da discografia dos Simple Minds.


"Sons and Fascination" incluía no seu alinhamento aquele que seria o primeiro êxito (moderado) dos Simple Minds: "Love Song". Mas foi o instrumental "Theme For Great Cities" (que podemos ouvir em cima), trazida em "Sisters Feelings Call", que definiu o tal ponto de viragem que referi em cima.
A composição electrónica minimalista, reminiscente do krautrock, num jogo de parada-resposta entre os vários elementos da secção rítmica dos Simple Minds, daria o mote para o que viria a seguir.

E a seguir, o que veio... foi História.
Os Simple Minds tornar-se-iam no grupo escocês mais popular de sempre, com 6 álbuns no nº 1 das tabelas do Reino Unido, conquistando também os lugares cimeiros em países como os EUA, a Alemanha, a Itália, a França, a Espanha, a Austrália, ou a Nova Zelândia.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Simple Minds - "I Travel"

"Europe has a language problem, talk, talk, talk, talk, talking on."



É já amanhã que os Simple Minds chegam a Portugal (na verdade já cá estão a ensaiar), para a estreia Mundial da empolgante digressão 5x5 Live.
O espectáculo será no Coliseu dos Recreios, em Lisboa e será assim o primeiro de uma longa digressão que vai levar os Simple Minds por toda a Europa, primeiro, e expectavelmente aos Estados Unidos, mais tarde.

Mas afinal, o que é isto da digressão 5x5 Live?


O espectáculos 5X5 Live farão a retrospectiva dos icónicos 5 primeiros álbuns dos Simple Minds: "Life In A Day", "Real To Real Cacophony", "Empires and Dance", "Sons and Fascination" / "Sister Feelings Calling" (na verdade 2 álbuns diferentes lançados ao mesmo tempo, mas correntemente fundidos num só) e "New Gold Dream (81/82/83/84)", que celebra este ano o seu 30º aniversário.
A banda vai tocar 5 temas de cada um destes 5 álbuns (daí os 5x5), num concerto que deverá ultrapassar a marca das 2 horas e meia.

Segundo Jim Kerr, "este é o alinhamento que muitos dos fãs de Simple Minds nos têm implorado para tocar e, finalmente, vão ter uma oportunidade única de o ver."
Aqui vemos Jim Kerr a promover o concerto na SolTV:



Como podemos ouvir nesta entrevista, a digressão 5x5 Live vem por ocasião da remasterização e do relançamento de uma caixa com os 5 primeiros álbuns da banda, com faixas bónus. Perante o crescente revivalismo da época do Post-Punk e da transição para a New Wave (transição personificada pelos Simple Minds), junta-se assim o útil ao agradável, com os fãs mais novos a terem oportunidade de ouvir ao vivo, pela primeira vez, algumas das pérolas mais antigas da banda.


Retirado do fantástico blog The Second Disc, fica aqui o alinhamento para a caixa com as remasterizações dos 5 primeiros, a ser lançada no dia 20 de Fevereiro (a minha já deve vir a caminho!):



"Simple Minds x5" (EMI SMBOX 2 (U.K.), 2012)




Disc 1: "Life in a Day" (originally released as Zoom Records ZULP 1, 1979)
1. "Someone"
2. "Life in a Day"
3. "Sad Affair"
4. "All for You"
5. "Pleasantly Disturbed"
6. "No Cure"
7. "Chelsea Girl"
8. "Wasteland"
9. "Destiny"
10. "Murder Story"
11. "Special View" (B-side to “Life in a Day” – Zoom ZUM 10, 1979)
12. "Garden of Hate" (B-side to “Chelsea Girl” – Zoom ZUM 11, 1979)




Disc 2: Real to Real Cacophony (originally released as Zoom Records/Arista SPART 1109, 1979)
1. "Reel to Real"
2. "Naked Eye"
3. "Citizen (Dance of Youth)"
4. "Carnival (Shelter in a Suitcase)"
5. "Factory"
6. "Cacophony"
7. "Veldt"
8. "Premonition"
9. "Changeling"
10. "Film Theme"
11. "Calling Your Name"
12. "Scar"
13. "Kaleidoscope" (Flexi-disc A-side – Arista ARIST 372-C, 1980)
14. "Film Theme (Dub)" (Flexi-disc B-side – Arista ARIST 372-C, 1980)
15. "Premonition" (Live @ Hurrah’s Club, New York – 10/24/1979) (B-side to “Changeling” – Arista ARIST 325, 1980)




Disc 3: "Empires and Dance" (originally released as Arista SPART 1140, 1980)
1. "I Travel"
2. "Today I Died Again"
3. "Celebrate"
4. "This Fear of Gods"
5. "Capital City"
6. "Constantinople Line"
7. "Twist/Run/Repulsion"
8. "Thirty Frames a Second"
9. "Kant Kino"
10. "Room"
11. "New Warm Skin" (B-side to “I Travel” – Arista ARIST 372, 1980)
12. "I Travel (Extended Mix)" (12″ A-side – Arista 12-448, 1980)
13. "Celebrate (Extended Mix)" (12″ A-side – Arista 12-394, 1980)




Disc 4: "Sons and Fascination" (originally released as Virgin V-2207, 1981)
1. "In Trance As Mission"
2. "Sweat in Bullet"
3. "70 Cities As Love Brings the Fall"
4. "Boys from Brazil"
5. "Love Song"
6. "This Earth That You Walk Upon"
7. "Sons and Fascination"
8. "Seeing Out the Angel"
9. "Sweat in Bullet" (Extended Remix) (12″ A-side – Virgin VS-451 12, 1981)
10. "In Trance As Mission" (Live @ Hammersmith Odeon, London – 9/25/1981) (B-side to “Sweat in Bullet” 12″ - Virgin VS-451 12, 1981)
11. "This Earth That You Walk Upon" (Instrumental) (B-side to “Love Song” 12″ – Virgin VS-434 12, 1981)




Disc 5: "Sister Feelings Call" (originally released as Virgin OVED-2, 1981)
1. "Theme for Great Cities"
2. "The American"
3. "20th Century Promised Land"
4. "Wonderful in Young Life"
5. "League of Nations"
6. "Careful in Career"
7. "Sound in 70 Cities"
8. "The American" (Extended Mix) (12″ A-side – Virgin VS-410 12, 1981)
9. "League of Nations" (Live @ Hammersmith Odeon, London – 9/25/1981) (B-side to “Sweat in Bullet” 12″ - Virgin VS-451 12, 1981)




Disc 6: "New Gold Dream (81-82-83-84)" (originally released as Virgin V-2230, 1982)
1. "Someone Somewhere (In Summertime)"
2. "Colours Fly and Catherine Wheel"
3. "Promised You a Miracle"
4. "Big Sleep"
5. "Somebody Up There Likes You"
6. "New Gold Dream (81/82/83/84)"
7. "Glittering Prize"
8. "Hunter and the Hunted"
9. "King is White and in the Crowd"
10. "Promised You a Miracle (Extended Version)" (12″ A-side – Virgin VS-488 12, 1982)
11. "Glittering Prize (Club Mix)" (12″ A-side – Virgin VS-511 12, 1982)
12. "Someone Somewhere (In Summertime) (Extended Mix)" (12″ A-side – Virgin VS-538 12, 1982)
13. "Soundtrack for Every Heaven" (B-side to “Someone Somewhere (In Summertime)” 12″ - Virgin VS-538 12, 1982)
14. "New Gold Dream (81/82/83/84) (German 12” Remix)" (12″ A-side – Virgin VINX 1, 1983)
15. "In Every Heaven" (from New Gold Dream DVD-Audio – Virgin 72438 13171 9 8, 2005)



Fica aqui, desde já, a promessa de voltar em breve aos Simple Minds, para uma análise mais a fundo deste período.

Para já, deixo aqui o tema que tem andado em repeat, nestas últimas horas de "aquecimento" para o concerto: "I Travel" do álbum "Empires And Dance" - de 1980 - o terceiro dos Simple Minds.
Não se assustem com a sonoridade de "I Travel", quando se aperceberem que parece mais um tema dos New Order, do que um dos tema dos Simple Minds que passam normalmente na rádio. É mesmo assim.
Olhem para isto como um produto de consumo alternativo. Não é bem aquilo a que estamos habituados, mas é igualmente muito, muito bom.

É curioso perceber que, em 1980, Jim Kerr falava em "I Travel" dos problemas políticos da Europa. Problemas de integração e comunhão de políticas de países de culturas diferentes.
32 anos volvidos, esses mesmos problemas estão mais do que nunca na ordem do dia. Mas agora com um significativo alargamento a Sul e a Leste.

"Europe has a language problem, talk, talk, talk, talk, talking on."

Jim Kerr estava muito entusiasmado com a faixa "I Travel" e a editora dos Simple Minds também. A Arista lançou o tema como o single de avanço de "Empires And Dance", criando para tal a primeira remistura alongada (tradução livre de "Extended Remix") da banda. Porém, o público não aderiu e o single não entrou nas tabelas.
Em 1982, "I Travel" foi também escolhido como o single de promoção da compilação "Celebration", que juntava uma selecção dos 3 primeiros álbuns. A compilação pretendia um buzz à volta da banda, aproveitando o relativo sucesso de "Sons And Fascination". Mas o single voltou a não entrar nas tabelas.
"I Travel" seria ainda lançado uma terceira vez em 1983, mas uma vez mais, falharia a entrada nas tabelas.
É pena, pois para mim é dos temas que melhor representam o virtuosismo da banda na sua fase inicial.

Agora, venha daí o 5x5 Live!

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Bruce Springsteen - "We Take Care of Our Own"

"I been knocking on the door that holds the throne
I been looking for the map that leads me home"



Silêncio...
Já lá vai algum tempo. Tempo a mais de silêncio, para quem gosta de escrever.
E que melhor forma de quebrar o silêncio, do que com uma grande notícia? É o que se pode chamar um regresso LIKE A BOSS!


E quem diz Like a Boss é como quem fala em... Bruce Springsteen.
Foi há exactamente 3 semanas, pouco passava do meio-dia de 19 de Janeiro, que Bruce quebrou o seu silêncio e largou a "bomba" na sua página do Facebook: vem aí novo álbum de originais e uma nova digressão com a E Street Band.

O anúncio foi acompanhado de um tema novo e dos detalhes do álbum.


O 17º álbum de estúdio de Bruce chamar-se-á "Wrecking Ball", terá 11 faixas (13 na sua edição especial) e será lançado no próximo dia 6 de Março, dentro de menos de 1 mês. O alinhamento será o seguinte:

1. "We Take Care of Our Own" (3:53)
2. "Easy Money" (4:00)
3. "Shackled and Drawn" (6:20)
4. "Jack of All Trades" (3:23)
5. "Death to My Hometown" (5:00)
6. "This Depression" (2:57)
7. "Wrecking Ball" (5:40)
8. "You've Got It" (4:18)
9. "Rocky Ground" (3:19)
10. "Land of Hope and Dreams" (7:03)
11. "We Are Alive" (4:23)
12. "Swallowed Up (In the Belly of the Whale)" (Bonus track) (3:24)
13. "American Land" (Bonus track) (4:00)

Olhando para este lote de temas, alguns nomes saltam à vista, como familiares para os fãs de Bruce Springsteen.
Desde logo o tema-título do álbum "Wrecking Ball", que foi alvo de um lançamento especial em vinil, aquando do Record Store Day, em Abril de 2010. A versão incluída nesse single foi uma gravação ao vivo no Giants Stadium, na Working On A Dream Tour, em 2009. O tema teria sido composto por Bruce, propositadamente para os espectáculos de regresso a New Jersey.
Reconhece-se também "American Land", que foi escrito durante as Seeger Sessions, em 2006, (as quais deram origem ao álbum "We Shall Overcome") e foi presença assídua nos concertos de Bruce desde então.
Por fim, "Land of Hope and Dreams", que foi composto em 1998, estreado ao vivo na Reunion Tour com a E Street Band em 1999, mas nunca viu a luz do dia num álbum de originais.
O restante material de "Wrecking Ball" terá sido escrito em 2011.

Várias notícias ao longo dos últimos meses já apontavam para novidades no mundo de Bruce Springsteen. No dia anterior ao anúncio do álbum, um artigo na Rolling Stone dava conta que o novo álbum combinava elementos da sonoridade clássica de Bruce e da sua experiência nas Seeger Sessions, com novas texturas e estilos.
Jon Landau - manager de Bruce - falou em "texturas inesperadas, loops, percussão electrónica, com influências e ritmos desde o hip-hop ao folk irlandês", num "esforço experimental com um produtor novo".
Como seria de esperar, estas foram palavras que não caíram muito bem no seio dos fãs de Bruce, adeptos naturais de sonoridades Rock e ávidos de um disco mais próximo de "Born To Run", ou "Darkness In The Edge Of Town", do que do último disco de Wyclef Jean.

Claro que estas palavras, para mim, valem o que valem, uma vez que serviram apenas para criar buzz para o novo álbum e não necessariamente caracterizam aquilo que ele nos vai trazer.
Landau disse também que "Wrecking Ball" será o álbum "mais enfurecido" que Bruce já escreveu, mas para quem ouviu "Darkness On The Edge Of Town", não posso de deixar aqui as minhas dúvidas sobre esta afirmação.

O tema novo é o primeiro single retirado de "Wrecking Ball": "We Take Care Of Our Own". Este é um tema que, embora efectivamente mais "enraivecido" do que a tarimba jovial de "Working On A Dream", poderia figurar num dos últimos álbuns de Bruce. Isto é, em termos de sonoridade, não se ouve a revolução propalada por Landau.
Esperemos então pelo álbum, já falta muito pouco.

domingo, 23 de outubro de 2011

Daryl Stuermer - "Urbanista" (Live)



Já foi há mais de uma semana, mas só hoje tive tempo para escrever umas linhas sobre o concerto de Daryl Stuermer na Sexta-Feira, dia 14 de Outubro, na Aula Magna.

Muitos perguntarão quem é, afinal, este Daryl Stuermer?
Muito sucintamente, Daryl Stuermer é um músico americano, que ficou famoso por tocar guitarra e baixo ao vivo com os Genesis e por ser o guitarrista principal que acompanhou Phil Collins, ao longo da sua carreira a solo.
Um sideman, portanto.
O próprio reconhece este desconhecimento geral acerca da sua pessoa, uma vez que a sua digressão foi promovida como "Daryl Stuermer of Genesis".


Foi assim, naturalmente, uma plateia de fãs de Genesis e Phil Collins que acorreu à Aula Magna, para ver a estreia de Daryl Stuermer a solo, fora dos Estados Unidos. Não contando com os concertos em que Daryl Stuermer tocou com os Genesis, nunca ninguém na sua banda tinha tocado ao vivo fora de portas, o que tornou esta noite muito especial para os artistas no palco.
Infelizmente, a crise, a falta de promoção do espectáculo, ou simplesmente a falta de apelo para ver um sideman dos Genesis, fez com que a plateia estivesse a apenas 1/3 da lotação esgotada.
Não deixa de ser surpreendente para quem, como eu, foi há 2 anos à Aula Magna ver os The Musical Box - uma banda de covers dos Genesis - para uma sala a rebentar pelas costuras.

Aparentemente, a falta de adesão do público não afectou a prestação, nem o bom humor, de Daryl Stuemer, que esteve bem disposto e comunicativo ao longo de todo o espectáculo.
Quanto à música, foi Genesis e foi por isso fabuloso.

A setlist completa foi a seguinte:

- "Duke's Intro" ("Behind the Lines" / "Duke's End") [Instrumental] (Genesis - Album: "Duke")
- "Just A Job To Do" [Instrumental] (Genesis - Album: "Genesis")
- "Throwing It All Away" (Genesis - Album: "Invisible Touch")
- "No Son of Mine" (Genesis - Album: "We Can't Dance")
- "Land of Confusion" [Instrumental] (Genesis - Album: "Invisible Touch")
- "Heavy Heart" (Daryl Stuermer - Album: "Go")
- "Deep In The Motherlode" (Genesis - Album: "…And Then There Were Three…")
- "Your Own Special Way" (Genesis - Album: "Wind And Wuthering")
- "...In That Quiet Earth" / "Ripples" [Instrumental] (Genesis - Album: "Wind And Wuthering" / "A - Trick Of The Tail")
- "Urbanista" (Daryl Stuermer - Album: "Go")
- "Squonk" (Genesis - Album: "A Trick Of The Tail")
- Drum Solo
- "Los Endos" / "The Cinema Show" / "Firth of Fifth" / "Squonk" (reprise) / "Los Endos" (reprise) [Instrumental] (Genesis - Album: "A Trick Of The Tail" / "Selling England By The Pound")
- "Something Happened On The Way To Heaven" (Phil Collins - Album: "…But Seriously")
- "Invisible Touch" (Genesis - Album: "Invisible Touch")

Encore:
- "I Can't Dance" (Genesis - Album: "We Can't Dance")
- "Turn It on Again" (Genesis - Album: "Duke")

Como se pode verificar, com a excepção de dois temas a solo, um tema de Phil Collins (que Daryl escreveu com Phil e que, segundo o que ele disse no concerto, lhe permitiu comprar uma casa nova), só deu Genesis na Aula Magna!

Como o próprio Daryl confessou, habituado a tocar o baixo com os Genesis (Michael Rutherford fica, na maioria das vezes, com a guitarra principal), esta foi uma oportunidade para ser ele a tocar as partes de lead dos Genesis, a música que ele mais admira e mais gosta.

O vídeo que aqui fica é de um dos temas a solo que Daryl Stuermer tocou: "Urbanista", retirado do álbum "Go" de 2007, o qual Daryl ainda está a tentar promover e vender nos stands das salas de espectáculos onde actua.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Genesis - "Duchess"

"Yes times were hard, too much thinking about the future and what people might want"



"Times were good, she never thought about the future, she just did what she would"

A saída de Peter Gabriel dos Genesis, em 1975, obrigou a banda a procurar um novo rumo. Inicialmente, a ideia era procurar um novo vocalista, mas a maioria dos que se apresentaram para audição pareciam aspirantes a cópias de Peter Gabriel, tentando a todo o custo mostrar a sua excentricidade. Mal eles sabiam que era exactamente isso que os restantes membros dos Genesis queriam evitar.

Quem dava as indicações de como cantar as músicas nestas audições era Phil Collins, até então baterista e backing vocals dos Genesis. Com o álbum seguinte praticamente pronto, faltando apenas acrescentar as faixas vocais, a banda decidiria desistir das audições e aproveitar os inegáveis dotes vocais de Phil.
E foi assim que Phil Collins saltou para a frente do palco dos Genesis e nasceria uma carreira brilhante no Rock e Pop das décadas seguintes.

O álbum "A Trick Of The Tail" - o primeiro dos Genesis com o quarteto Banks/Rutherford/Collins/Hackett - foi um sucesso de vendas, superando todos os trabalhos anteriores dos Genesis, incluindo "Selling England By The Pound". No entanto, Steve Hackett e a restante banda pareciam estar a mover-se em direcções diferentes e após a digressão de "Wind And Wuthering", Steve deixaria a banda.
Estava então completa a formação mais duradoura dos Genesis: o trio Banks/Rutherford/Collins. O álbum seguinte chamar-se-ia, apropriadamente, "...And Then We Were Three".

"And she dreamed that every time that she performed, everyone would cry for more"

Porém, "...And Then We Were Three" foi um tiro ao lado, um álbum onde se notava que o trio Banks/Rutherford/Collins já não estava muito à vontade com o Prog. Para além disso, em 1978 a banda estava exausta depois de uma década de constantes gravações em estúdio e digressões.
Naquele cenário, o trio não iria longe e à chamada de aviso de Phil Collins, que queria voltar a casa para salvar o seu casamento, Banks e Rutherford responderam-lhe com uma proposta irrecusável: 1979 seria um ano de férias para os Genesis.

"She battled through, against the others in her world, and the sleep, and the odds"

Mas as coisas não correram bem para a vida pessoal de Phil Collins.
Enquanto o seu casamento desmoronava, Phil vivia nesta altura uma das fases mais prolíficas da sua carreira. Durante o aftermath do casamento, Phil escreveu "Face Value" - o seu primeiro álbum a solo e ainda hoje o mais aclamado da sua discografia a solo - e ainda emprestou aos Genesis dois temas para o novo álbum: "Misunderstanding" e "Please Don't Ask". Tudo isto no mesmo ano.

Em 1980, depois de um ano de hiato, os Genesis voltaram ao estúdio e assim nasceu o superlativo "Duke".

"Duke" representa o ponto alto da formação em trio dos Genesis. É a fusão perfeita entre o Rock Progressivo que ficara para trás em "...And Then We Were Three" e o Pop Rock que viria a seguir, mais influenciado por Phil Collins e cristalizado no álbum "Invisible Touch" de 1986. Em "Duke", os Genesis juntaram peças longas reminiscentes dos seus anos progressivos, mas também usaram Drum Machines, um instrumento proibitivo do Rock Progressivo.

É esse o caso deste fabuloso "Duchess".

"Duchess" faz parte da suposta "Duke Suite", uma sequência longa, inicialmente prevista para ocupar um lado inteiro do álbum (à imagem, por exemplo, de "Supper's Ready" do álbum "Foxtrot") e que consistia em:
- "The Duke" (mais tarde baptizado de "Behind the Lines")
- "Duchess"
- "Guide Vocal"
- "Turn It On Again" (alegadamente, mas aqui sou obrigado a pôr as minhas dúvidas, uma vez que não vejo grande relação entre "Turn It On Again" e as restantes partes)
- "Jazz" (faixas mais tarde separadas e baptizadas de "Duke's Travels" e a instrumental "Duke's End")


Deste grupo, sobressaem obviamente "Duchess" e "Turn It On Again", como faixas que se fazem valer por si só.
"Turn It On Again" foi lançado como o single de avanço de "Duke" e tornou-se num dos singles de maior sucesso dos Genesis até à data, fixando-se também como um dos temas obrigatórios em concerto.
"Duchess" seguiu-lhe como o 2º single e, embora não tenha obtido grande sucesso nas tabelas, é visto por Tony Banks como o melhor tema de sempre dos Genesis, eventualmente profetizando a História real da banda, desde o ido passado em 1980, até ao futuro que ainda aí viria.

"And all the people cried, you're the one we've waited for"

O vídeo foi gravado junto ao Liverpool Empire Theatre e mostra Phil Collins num novo visual de barba comprida, na minha opinião, o mais cool de sempre. Visual esse que eu tentei, com sucesso, imitar durante alguns meses nos meus tempos de estudante.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Héroes del Silencio - "Entre dos Tierras"

"Entre dos tierras estás y no dejas aire que respirar"




"Déjame!! Que yo no tengo la culpa de verte caer, si yo no tengo la culpa de ver que..."

Numa das muitas tertúlias musicais que tinha em tempos com um velho amigo, um dia mencionei esta famosa introdução de guitarra em delay ("tan (tan tan) tan (tan tan)"... e por aí fora), ao que ele sorriu e disse: "Estes espanhóis sabem o que fazem".
E sabem mesmo.

O tema é o fabuloso "Entre Dos Tierras" dos Heroes Del Silencio, um hino Rock latino, que me acompanhou ao longo de várias fases da minha vida.
Aquando do seu lançamento, em 1990, como single de avanço do álbum "Senderos de Traicion" (que foi recentemente eleito pela Rolling Stone como o 2º melhor álbum espanhol de sempre), "Entre Dos Tierras" foi um smash hit não só em toda a Espanha, mas também nas rádios locais de onde eu cresci. Durante um longo período de tempo, não havia dia nenhum que não ouvisse este tema inadvertidamente, pelo menos uma vez.


Os anos passaram e eu deixei de ouvir "Entre Dos Tierras" com tanta frequência.
Passara para a época eu que teria que ser eu a procurar a música que queria ouvir. E assim surgiu novamente "Entre Dos Tierras", que adoptei como uma espécie de hino da noite na juventude.
Neste sentido, costumo dizer que há sempre uma maneira de salvar uma noite, mesmo as mais amorfas: é com Heroes Del Silencio e este imperdível "Entre Dos Tierras". Não sendo propriamente um êxito recente, é por isso inevitável que este seja um dos temas que mais requesitei a DJ's ao longo dos anos.

Para mim, "Entre Dos Tierras" não só o melhor tema que conheço do Rock espanhol (diria até do Rock não falado em inglês), como também um dos melhores temas Rock de sempre.
Mais do que isso, "Entre Dos Tierras" tornar-se-ia também num dos temas preferidos do meu Pai, o que faz com que aquela entrada com as guitarras em delay signifique muito mais do que a chegada de mais um tema Rock... mas sim uma experiência familiar.

domingo, 2 de outubro de 2011

Red Hot Chili Peppers - "Can't Stop"

"The world I love, the tears I drop, to be part of the way I CAN'T STOP, ever wonder if it's all for you?!"



Os Red Hot Chili Peppers têm aquela sonoridade muito própria, de quem trouxe um cheirinho Funk ao Rock. Não é um original deles, mas é algo que não havia muito no mainstream, quando explodiram em 1991 com "Give It Away".

A procura do ritmo, do groove, é algo que sempre assumiu grande importância nas música dos Red Hot. Tanto nos seus trabalhos mais antigos, nos anos 80 e 90, como nos álbuns mais recentes.
É o caso deste "Can't Stop", do álbum "By The Way" de 2002.

O álbum "By The Way" foi escrito no período mais feliz da banda, na sequência do mega-sucesso de "Californication", durante os late 90's e early 00's. Um mega-sucesso que não foi marcado por tragédias ou conflitos, como em outras fases da carreira dos Red Hot. "Californication" foi um álbum que marcou indelevelmente a minha geração. O seu sucesso foi tão grande, que durante 2 anos foram lançados singles de promoção ao álbum. Parecia uma mina sem fim para as rádios.

A recepção de "By the Way" foi assim feita com grandes expectativas, não só pelos fãs, como também pelo público em geral, que tinha sido brindado massivamente com os Red Hot na rádio e na televisão nos anos anteriores.
O primeiro single foi "By The Way" e eu confesso que, mesmo gostando, não fiquei muito impressionado. Já o segundo single - "The Zephyr Song" - revelou-se como o tema que mais abomino dos Red Hot. Não sei porquê, mas não me entrou no ouvido. Não entrou na altura e continua a não entrar hoje.

Foi só com o 3º single que o jogo mudou.
"Can't Stop" foi lançado em Janeiro de 2003, meio ano depois do lançamento de "By The Way" e fixou-se como o meu tema de eleição dos Red Hot Chili Peppers (ainda hoje o é). Mais que isso, mostrou-me que eles ainda tinham muito na manga.


Na mimha opinião, quem brilha com maior intensidade em "Can't Stop" é o guitarrista John Frusciante. John marca o ritmo com as suas simples frases na guitarra (o início até é reminiscente do Reggae, um género do qual nem gosto particularmente), mas mais que isso, confere com as suas harmonias vocais um estado de graça ao tema. Sublime.

Para além das virtudes musicais de "Can't Stop", a lírica deste tema é algo com que me identifico pessoalmente. As palavras de Keidis funcionam de forma salpicada e algo arbitrária, mas inserem-se todas na mesma temática: a condição inquieta e desassossegada do ser humano.
Não de todos obviamente.
Mas para quem vive em constante urgência de resolução;
Para quem não se limita a uma vida levada pela corrente;
Para quem não consegue parar;
Para essas pessoas... este tema toca nalguns botões.

"Choose not a life of limitation, distant cousin to the reservation!"

A lírica em "Can't Stop" está exposta de forma a que o ouvinte se possa identificar com pelo menos alguns dos pontos abordados. Kiedis descreve vários factos da sua vida, mas sem especificar o seu sentido pessoal, permite ao ouvinte adoptar a canção para si mesmo, como um hino da sua própria vida.

"Can't stop the spirits when they need you, this life is more than just a read thru"