quarta-feira, 7 de setembro de 2011

The Beatles - "I'm Down"

"How can you laugh, when you know I'm down?!"



A acção decorre por volta da meia noite.
O local: o parque de estacionamento de uma discoteca algures nos arredores de Gruissan, no sul de França. A noite é escura, mas nitidamente estrelada, fruto da distância a qualquer centro urbano.

Enquanto estou dentro do carro com um amigo a cheirar o ambiente da casa, toca na aparelhagem do carro uma compilação de temas antigos, mais rockeiros, dos The Beatles. Ouve-se "I Saw Her Standing There", "Twist And Shout", "Roll Over Beethoven", entre outros.
A páginas tantas, entra um tema com Paul McCartney a gritar:

"YOU TELL LIES THINKING I CAN'T SEE!
YOU CAN'T CRY 'CAUSE YOU'RE LAUGHING AT ME!
I'M DOWN!"

A adrenalina do grito de Paul atinge-me como um relâmpago e eu abro a porta do carro.
Ao sair disparado da viatura, é com enorme surpresa que encontro, lá fora, um grupo de franceses a dançar, igualmente atingidos pela força do grito melódico de Paul.
E todos dançamos e em uníssono gritamos com os The Beatles:

"HOW CAN YOU LAUGH, WHEN YOU KNOW I'M DOWN?!"

Esta história é verídica e aconteceu em 2010, 45 anos depois da gravação de "I'm Down", 40 anos depois da separação dos The Beatles. Nenhum dos presentes viveu a Beatlemania e provavelmente os seus pais são demasiado novos para se lembrarem disso.
O que é que isso interessa? Nada.
À 3ª geração, volvidos tantos anos, é esta a força dos The Beatles.
Permanece intacta.

Bem, intacta... Mais ou menos.
A época da Beatlemania já passou e momentos como os que Paul, John, George e Ringo passaram, não voltaram nunca mais. Nem para eles, nem para mais nenhuma banda, por maior que tenha sido o sucesso que obteve.
O vídeo que se segue mostra-nos o último tema da performance dos The Beatles ao vivo no Shea Stadium, em New York, numa quente noite de Agosto de 1966. O tema é precisamente "I'm Down" e a reacção do público (principalmente do público feminino) é qualquer coisa que... só visto. Ver para crer.



Esta seria a ante-antepenúltima actuação ao vivo dos The Beatles, antes da sua retirada dos palcos, para se focarem exclusivamente nos seus álbuns de estúdio. Depois disso, só mesmo a famosa actuação no tecto dos estúdios da Apple, em Londres.

Note-se que "I'm Down" foi lançado em 1965 como o lado B do single de "Help!" e nunca foi incluído num álbum dos The Beatles. Não sei se o público conhecia o tema ou não, mas dá-me a sensação que isso não interessava para nada.


Aposto que quando Paul McCartney escreveu "I'm Down", há 45 anos atrás, este não imaginava que os netos dos fãs que na época gritavam pelos The Beatles em países diferentes, se juntariam de madrugada, num parque de estacionamento perdido no sul de França, para uma vez mais gritarem com ele.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Noel Gallagher - "Fade Away" (Semi-Acoustic Live)

"Fade away while we're living the dreams we have as children"



Depois do fim dos Oasis em 2009, a carreira a solo de Noel Gallagher está neste momento a arrancar a sério.
Em Outubro teremos o lançamento do álbum homónimo da sua nova banda - os "Noel Gallagher's High Flying Birds" - e entretanto o single de avanço "The Death Of You And Me" foi lançado dia 21 de Agosto, chegando ao (discreto) 15º lugar das tabelas britânicas. Uma desilusão, tendo em conta que Noel Gallagher é ainda uma das referências do Rock britânico.
Veremos como é que o álbum será recebido no mês que vem.

No entanto, o primeiro lançamento oficial de Noel Gallagher a solo data de Março de 2009, uns meses antes da famosa discussão em Paris, que ditaria o fim dos Oasis. Trata-se de "The Dreams We Have As Children", um álbum gravado ao vivo no Royal Albert Hall em 2007, para a instituição de caridade "Teenage Cancer Trust".


"The Dreams We Have As Children" tem sido o meu álbum de eleição nas últimas semanas, tocando repetidamente em qualquer lado onde esteja: seja em casa na minha aparelhagem, ou na rua no meu Creative (sim, porque em termos de compatibilidade e de qualidade sonora, a Creative é muito melhor que a Apple e o seu iPod).

O que mais me impressiona em "The Dreams We Have As Children" é a forma como os temas clássicos dos Oasis ganham uma nova vida, uma vez submetidos à transformação semi-acústica imposta por uma banda formada por Noel na guitarra acústica, Gem na guitarra eléctrica ou nas teclas e "the mysterious Terry" na percussão.



É esse o caso deste fabuloso "Fade Away", que dá nome a este álbum numa das suas linhas.
"Fade Away" é um tema da autoria do próprio Noel, originalmente gravado em 1994 como um Lado B para o Single de "Cigarrettes And Alcohol".


A versão original de "Fade Away" era cantada por Liam Gallagher e situava-se no território mais próximo do Punk que os Oasis pisaram. Ao ouvir "Fade Away" novamente em "The Dreams We Have As Children", este tema transforma-se, de repente, numa melódica balada.
Fabuloso.

Curiosamente, "Fade Away" já tinha conhecido um tratamento semelhante, quando em 1998 foi gravada a "Warchild Version", para uma compilação de ajuda à caridade e incluída como lado B no single japonês de "Don't Go Away". Esta versão conta com Noel na voz, Johnny Depp na guitarra e Lisa Moorish e Liam nos backing vocals.



Na altura em que Noel escreveu "Fade Away", supostamente com o propósito definido de ser um lado B, era habitual este ter a arrogância de atirar grandes temas para lados B dos singles, não os guardando para futuros álbuns. Embora constantemente avisado que os temas que escrevia eram bons demais para serem relegados para lados B, Noel teimava que "se foram escritos para serem lados B, lados B devem ser". E assim foi.

"Now my life has turned another corner, I think it`s only best that I should warn you: Dream it while you can, maybe someday I`ll make you understand"

Noel julgava que a inspiração que carregava consigo nos anos dourados dos Oasis duraria para sempre. Como seria de esperar, uns anos mais tarde Noel já se confessava arrependido destas decisões.
Outro exemplo desta arrogância é o fabuloso "Listen Up", que curiosamente também foi deixado como um Lado B de "Cigarrettes And Alcohol". Estes temas, juntamente com outros lados B de qualidade semelhante, foram reunidos em 1998 para a compilação "The Masterplan" - provavelmente a mais sólida compilação de lados B da História.


O vídeo que se apresenta em cima foi gravado na Union Chapel (em Londres), em Novembro de 2006. Este foi um concerto inserido numa pequena digressão semi-acústica pela Europa, que Noel Gallagher e Gem Archer fizeram para promover a compilação "Stop The Clocks" dos Oasis.
Esta actuação na Union Chapel seria posteriormente editada para transmissão televisiva, dando lugar ao especial "Sitting Here In Silence", numa alusão a "Sittin' Here In Silence (On My Own)", outro lado B dos Oasis, também escrito por Noel Gallagher, para o single de "Let There Be Love".

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Freddie Mercury - "Time (Nile Rodgers 1992 Remix)"

"Time waits for nobody..."



O dia em que o Rei faz anos. É hoje.

Foi há 65 anos que, em Zanzibar, numa pequena ilha ao largo da Tanzânia, nasceu o Rei. O Rei, claro está, é Freddie Mercury. O único, o mais genial e mais completo artista da História do Rock, o meu ídolo de sempre, o Rei Freddie Mercury.

Freddie nasceu pacatamente sob a cultura Parsi, muito longe dos palcos que viria a pisar uns anos mais tarde.
Muito cedo Freddie se mudou para a Índia, onde frequentou escolas britânicas na zona de Bombaim (hoje Mumbai), as quais lhe incutiram formação musical, principalmente de piano, instrumento onde já revelava capacidades notáveis.

Aos 17 anos, Freddie e a sua família mudaram-se para o Middlesex no Reino Unido. Freddie integrou alguns projectos musicais sem sucesso, até que em 1970 se junta a Brian May e Roger Taylor dos Smile e, mais tarde com John Deacon, formam os Queen.
O resto é História. A História que todos conhecemos.

Para festejar esta data, o tema que aqui deixo é "Time", um dos meus preferidos da curta carreira a solo de Freddie Mercury. "Time" foi originalmente gravado em 1986, juntamente com "In My Defence" (outro tema fabuloso), para o musical de Dave Clark com o mesmo nome.
Para a promoção do musical e do respectivo álbum, "Time" foi lançado em single no Reino Unido, atingindo o modesto 32º lugar.


As versões originais de "Time" e "In My Defence" ficariam de fora dos álbuns a solo de Freddie Mercury. Em 1992, diferentes remisturas de ambos os temas apareceriam nas compilações póstumas "The Great Pretender" (lançada nos Estados Unidos) e "The Freddie Mercury Album" (lançado na Europa). Os originais apareceriam apenas mais tarde na megalómana caixa "Solo" de 2000 e na compilação "Lover of Life, Singer of Songs: The Very Best of Freddie Mercury Solo" de 2006.

A versão que aqui fica é a remistura de Nile Rodgers (dos Chic) em 1992, uma vez que foi aquela que eu sempre conheci e aprendi a gostar. E é nada menos que fantástica.

A verdade é que parece que todo o Mundo hoje presta homenagem ao Rei. Basta abrir a página do Google, para darmos com o doodle:



A equipa da banda decidiu também criar um "vídeo oficial" de homenagem ao Rei:



Aqui vemos Freddie em vários momentos ao longo da sua carreira, seja ao vivo, em entrevistas, ou mesmo em estúdio. Destaco as imagens (absolutamente inéditas) de Freddie a gravar a lindíssima balada "My Melancholy Blues", nas sessões de "News Of The World". Adorei.
Neste vídeo, Freddie profere algumas frases fortes (a maioria já conhecia), onde fala também da sua pessoa:

"I think I am a man of extremes, I don't think I have that much in the middle"

Como eu te compreendo, Freddie!

"Everybody looks at me on stage and they think that's the way I am, arrogant and all...
And you look at me now and you see that actually I'm quite boring"

E aqui está aquilo que, para muitos, pode ser uma revelação. Freddie Mercury era mesmo um homem de extremos e se em palco era a bola de fogo que conhecemos, fora dele podia ser uma pessoa calma, até mesmo enfadonha.

"When I'm dead, who cares? I don't"

I do Freddie! I still do...

domingo, 4 de setembro de 2011

Deep Purple - "Fireball"

"Oh my love it's a long way, where you're from it's a long way"



Na (longa) discografia dos Deep Purple, "Fireball" aparece entalado entre os dois álbuns mais icónicos da banda - "In Rock" de 1970 e "Machine Head" de 1972 - o que faz com que "Fireball" seja, com alguma frequência, injustamente ignorado.


A verdade é que se "In Rock" e "Machine Head" têm esse estatuto, isso não acontece por acaso, uma vez que são efectivamente álbuns mais sólidos. Mas isto não significa que "Fireball" não tenha os seus momentos. Curiosamente, seria mesmo "Fireball" o primeiro álbum dos Deep Purple a atingir o nº1 das tabelas britânicas, feito não conseguido por "In Rock".

Nesta altura, a formação MkII dos Deep Purple vivia a sua época dourada, por isso praticamente tudo o que fazia materializava-se em trabalhos inspirados e muito, muito edgy.

No caso do álbum "Fireball", o grande momento vem com o seu tema-título, que é um também dos meus temas de preferência da banda. O tema abre o álbum de forma explosiva, ao som de um dispositivo de ar-condicionado, seguido de um solo de bateria.

O tema "Fireball" foi lançado como o segundo single de promoção do álbum e foi um êxito modesto, atingindo a 15ª posição na tabela de singles britânica. O lançamento deu-se depois de "Strange Kind Of Woman" no Reino Unido e "Demon's Eye" nos Estados Unidos, sendo que ambos os temas ficaram de fora do alinhamento do álbum nos respectivos países.


"They wonder where you're from, they wonder where I found you"

"Fireball" fala de uma situação peculiar da vida e do amor: quando o amor é encontrado a uma grande distância de casa, talvez num país distante, talvez numa cultura diferente. A mulher caracterizada no tema age de forma diferente de todos em seu redor e todos querem saber de onde é, onde que é que foi encontrada. Segundo Ian Gillian, o tema é baseado numa experiência que o próprio viveu, dizendo que "é mais uma história de amor não correspondido".
De facto, quem quer que já tenha vivido toldado pelo fascínio de alguém vindo de longe sabe que não é fácil fazer face a grandes distâncias no amor, sejam elas geográficas, ou culturais.

"Oh my soul it's a long way, where you're from it's a long way"

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Queen - "Save Me"

"It started off so well..."




Hoje tive uma epifania. Mas já lá vamos.

Sempre que alguém me faz a clássica pergunta "Qual a tua banda preferida?", o primeiro nome que vem à cabeça são os Queen. Por isso, para mim, é essa a resposta mais objectiva a essa pergunta.

O mais engraçado é que sempre foi assim. Desde que me lembro de "ser", desde que me lembro de ouvir música. Sempre foi assim.
E note-se que muitas das minha memórias mais remotas são a ouvir música.

Ao longo dos anos fui expandindo o meu espectro de gostos musicais, mas os Queen ficaram sempre. Posso passar semanas sem os ouvir, mas quando decido voltar a tocar um dos seus álbuns, eles lá estão. O prazer está lá sempre.
A música dos Queen nunca me falhou como elemento calmante e apaziguador de uma vida que, doutra forma, tenho a sensação que seria mais dura.
Este efeito medicinal da voz de Freddie Mercury e da guitarra de Brian May (que me perdoem o Roger e o John, mas a sonoridade dos Queen deve-se em primeira instância a estes dois) mas aquela sensação é algo de inexplicável, mas que faz parte da minha vida. Sempre fez.

"Save me! Save me! Save me... I can't face this life alone"

Foi também a discografia dos Queen a primeira que eu completei, quando em Barcelona comprei o CD de "Live Magic", tinha eu 17 anos. Foram a minha primeira banda preferida e ainda o são hoje.

Assim, é fácil perceber que eu tenho um fraquinho pelos Queen e especialmente pelo seu vocalista, o Rei Freddie Mercury. Deste modo, podendo estar habilitado a para falar sobre factos relacionados com os Queen, tenho alguma dificuldade em avaliar qualitativamente o trabalho dos Queen, quando comparado com outras bandas.
Queen é Queen. Ponto final.

Tudo isto para dizer que hoje decidi tocar os primeiros álbuns que eu comprei, já lá vão uns bons anos: os inigualáveis "Greatest Hits" e "Greatest Hits II".
Digo inigualáveis porque, em matéria de êxitos, creio que os Queen são mesmo impossíveis de igualar.
Arrisco dizer que não há, nem houve, banda nenhuma no Mundo, na História da música popular, que tenha a enxurrada de êxitos que os Queen têm, a atingir uma população tão global como a que os Queen atingem. Nem os The Beatles, nem os The Rolling Stones, nem os U2... Ninguém.

Não só a quantidade de êxitos dos Queen é enorme (façam o exercício de pensar quantos temas dos Queen é que passam nas rádios mais mainstream, ou então quantos é que acham que "toda a gente conhece"), como também a legião de fãs dos Queen se estende até aos locais mais inesperados do Planeta (tudo isto tem explicação, mas isso ficará para outra vez), como nenhuma outra banda.
O apelo dos Queen é transversal.

Voltando à minha história, quando hoje voltei a ouvir os "Greatest Hits" dos Queen e me deparei com o solo de guitarra de Brian May (ao segundo 2:38), aquela sensação voltou. Passados todos estes anos, os Queen ainda lá estão. Os Queen ainda são os Queen.
E tive uma epifania.
Com a música dos Queen, estou a salvo, estou em segurança.




P.S.: Só para manter a "tradição informativa" deste blog, falta-me referir que "Save Me" foi o 2º single retirado do álbum "The Game" de 1980, ainda 6 meses antes deste ser lançado. Foi um êxito moderado, atingindo o 11º lugar nas tabelas britânicas e o Top 10 em vários países da Europa.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Pink Floyd - "High Hopes"

"Beyond the horizon of the place we lived when we were young, in a world of magnets and miracles..."



Hoje recuamos a 1994, para uma escolha muito pessoal, de um tema que marcou indelevelmente toda a minha vida, particularmente a minha infância.
Trata-se de um dos meus temas preferidos de sempre, de uma das minhas bandas preferidas de sempre, naquele que é muito provavelmente o álbum que mais vezes ouvi na minha vida. Eu sei, são muitos superlativos juntos na mesma frase. Mas é isso mesmo que significa para mim "High Hopes", retirado do melhor álbum de sempre (não sei se já o referi) "The Division Bell" dos Pink Floyd.




"The Division Bell" foi o álbum de despedida dos Pink Floyd. Sem Roger Waters - o principal compositor da banda nos anos 70 - este foi o 2º esforço dos restantes Floyd para voltar a fazer algo de verdadeiramente relevante, o que não tinha sido totalmente conseguido com o álbum de 1987 "A Momentary Lapse Of Reason".
E sem dúvida que acertaram em cheio.

Como um bom vinho envelhecido, "The Division Bell" mostra uma sonoridade apurada dos Pink Floyd, resultante da maturidade musical e pessoal da dupla Richard Wright / David Gilmour.
Sem a vivacidade dos seus tempos de juventude e sem a adrenalina criativa do veneno injectado por Roger Waters, "The Division Bell" mostra o lado tranquilo e pacífico da música de Gilmour e de Wright.

Ao contrário dos álbuns da década de 70, aqui deixamos de ver o "lado negro", para passarmos a ver o "lado luminoso".
A claridade, a luminosidade, são efeitos quase holograficamente palpáveis em diversos pontos ao longo do álbum, como o piano em "Cluster One", ou as introduções de "Take It Back" e "Coming Back To Life".
É lindo. Absolutamente lindo. Não encontro melhor maneira de descrever.

Esta capacidade que Gilmour e Wright possuem, em esculpir imagens exclusivamente com os seus instrumentos, confere a "The Division Bell" um predicado ímpar: o álbum consegue comunicar uma mensagem ao ouvinte, sem que para isso tenha que utilizar a palavra.
Recordo que a lírica sempre foi uma parte de extrema importância na música dos Pink Floyd até à saída de Roger Waters. Os álbuns tinham sempre uma mensagem muito forte, expressa pela escrita de Waters, quer de crítica da sociedade ("The Dark Side Of The Moon" e "Animals"), quer de crítica da indústria ("Wish You Were Here"), quer de crítica política ("Animals" e "The Final Cut"), quer mesmo da crítica do comportamento humano ("The Wall").

O reverso da medalha é que, com o tempo, a preocupação com a mensagem foi-se sobrepondo à atenção com a música. O domínio de Waters foi crescendo, os álbuns foram tornando-se mais líricos e as tensões criadas por estas mudanças, juntamente com uma série de outros factores (que dariam para vários artigos diferentes), levariam à sua saída da banda em 1984.
Com isto, se perguntarem a alguém como o meu pai, que não percebe a língua inglesa, a opinião sobre "The Division Bell" e, por exemplo, "The Final Cut" (o mais lírico de todos os álbuns dos Pink Floyd), ele dir-vos-á sem hesitações que adora o primeiro e não tem grande simpatia pelo segundo.
Porquê? A resposta está na preocupação com a música, recuperada pelo renascimento da dupla Richard Wright (expulso da banda depois da digressão de "The Wall") / David Gilmour.

Em "The Division Bell", as temáticas deixam de ser a alienação individual, ou a alienação com a sociedade. Aqui fala-se de temas simples e que nos tocam a todos: a vida, o caminho que percorremos, o amor e a importância da comunicação como a chave da interligação dos elementos anteriores. Nesta mudança de direcção, teve grande importância o input lírico da então namorada de David Gilmour, a novelista londrina Polly Samson (casados desde a digressão de "The Division Bell"), o que não agradou a muitos fãs dos Floyd.
Quanto a mim, nada disto me faz grande celeuma. O que em "The Division Bell" se perde em eloquência, ganha-se em música.
E isso não é pouco.

"The grass was greener..."

O tema que aqui fica é o épico "High Hopes", cujo vídeo é, por si só, uma obra de arte.
O tema abre com os famosos sinos de igreja, intercalados pelo piano de Richard Wright. Curiosamente, o efeito sonoro dos sinos foi retirado de um tema muito anterior dos Pink Floyd: "Fat Old Sun", do álbum "Atom Heart Mother de 1970.

"High Hopes" é o tema de despedida dos Pink Floyd. É um olhar sorridente sobre o passado, com vista ao que o futuro pode trazer. É o epílogo perfeito para o brilhante reportório dos Pink Floyd, com um solo final que parece propagar-se eternamente, no tempo e no espaço. Que é exactamente o que eu espero que aconteça com a música dos Pink Floyd.

"Forever and ever..."

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Bon Jovi - "Livin' On A Prayer"

"Ooooohhh We're half way there! Oaaaahhh ha! Livin' on a prayer!!"



O tímido sucesso dos dois primeiros álbuns dos Bon Jovi ("Bon Jovi" e "7800° Fahrenheit") deixaram a banda reticente quanto à direcção que escolheram para a sua carreira. Para o 3º álbum, decidiram fazer uma abordagem diferente: trouxeram para o estúdio Desmond Child (escritor e produtor Pop/Rock profissional e hoje amigo de longa data da banda), escreveram aproximadamente 30 temas e deram-nos a conhecer a um grupo de adolescentes da zona.
A opinião do público alvo principal dos Bon Jovi, ajudou a banda a perceber qual a direcção a seguir, mas nem por isso o trabalho doravante foi fácil.

Neste processo de decidir o que sai e o que fica, o mais curioso é que Jon Bon Jovi queria deixar "Livin' On A Prayer" de fora de "Slippery When Wet", convencido que o tema não tinha qualidade suficiente para figurar no álbum. O guitarrista Richie Sambora tinha outra opinião e acreditando que os Bon Jovi tinham nas suas mãos um potencial êxito, levou a banda a re-gravar o tema, desta vez usando a talk-box e criando o hoje lendário riff de "Livin' On A Prayer".
Em boa hora Richie convenceu a restante banda do potencial de "Livin' On A Prayer", uma vez que a gravação original (que se pode ouvir em "100 000 000 Bon Jovi Fans Can't Be Wrong") deixa mesmo muito a desejar:



...e porque o resultado final é o clássico que todos conhecemos.
Cumprindo a profecia de Richie Sambora, "Livin' On A Prayer" foi lançado como o 2º single de "Slippery When Wet" e facturou o 2º nº 1 consecutivo nas tabelas americanas para os Bon Jovi, depois de "You Give Love A Bad Name".
O single foi um sucesso de proporções colossais, tornando-se no ex-libris dos Bon Jovi, com rodagem contínua nas rádios e nas discotecas durante os 25 anos que se seguiram e atingindo o lugar cimeiro das tabelas em todo o Mundo, durante várias vezes neste período.


O sucesso de "Livin' On A Prayer" é de tal forma consistente no tempo, que os Bon Jovi se deram ao luxo de replicar em 1999, quando gravaram uma recriação deste tema, sob a forma do smash hit "It's My Life", lançado no ano seguinte. O tema do álbum "Crush" apresenta indisfarçáveis paralelismos, sendo que até o riff da Talk-Box é o mesmo...

Tal como em tantos outros temas dos Bon Jovi, em "Livin' On A Prayer" as onomatopeias assumem uma importância lírica ao nível da letra. A introdução na talk-box, os "Ooooohhh!" e "Oaaaahhh ha!" do refrão... são estes os grandes hooks do tema. E é nada menos do que maravilhoso.
Quando estamos dentro do carro, cansados no fim de um dia, e aparece "Livin' On A Prayer" na rádio, gritar a plenos pulmões o refrão do tema chega a ser terapêutico. Isto é apenas um exemplo do brutal poder anímico da música, concretamente deste "Livin' On A Prayer".

"Livin' On A Prayer" é provavelmente um daqueles temas que TODOS conhecem, em TODO o Mundo. A sério.
Acredito piamente que se encontrarmos um ermita budista no Tibete, alguém que pode nem sequer saber quem é Obama, e se lhe falarmos em Bon Jovi, ele nos vai responder com o inconfundível "Uooh Uooh" da talk-box de Richie Sambora.