terça-feira, 30 de agosto de 2011

Pink Floyd - "High Hopes"

"Beyond the horizon of the place we lived when we were young, in a world of magnets and miracles..."



Hoje recuamos a 1994, para uma escolha muito pessoal, de um tema que marcou indelevelmente toda a minha vida, particularmente a minha infância.
Trata-se de um dos meus temas preferidos de sempre, de uma das minhas bandas preferidas de sempre, naquele que é muito provavelmente o álbum que mais vezes ouvi na minha vida. Eu sei, são muitos superlativos juntos na mesma frase. Mas é isso mesmo que significa para mim "High Hopes", retirado do melhor álbum de sempre (não sei se já o referi) "The Division Bell" dos Pink Floyd.




"The Division Bell" foi o álbum de despedida dos Pink Floyd. Sem Roger Waters - o principal compositor da banda nos anos 70 - este foi o 2º esforço dos restantes Floyd para voltar a fazer algo de verdadeiramente relevante, o que não tinha sido totalmente conseguido com o álbum de 1987 "A Momentary Lapse Of Reason".
E sem dúvida que acertaram em cheio.

Como um bom vinho envelhecido, "The Division Bell" mostra uma sonoridade apurada dos Pink Floyd, resultante da maturidade musical e pessoal da dupla Richard Wright / David Gilmour.
Sem a vivacidade dos seus tempos de juventude e sem a adrenalina criativa do veneno injectado por Roger Waters, "The Division Bell" mostra o lado tranquilo e pacífico da música de Gilmour e de Wright.

Ao contrário dos álbuns da década de 70, aqui deixamos de ver o "lado negro", para passarmos a ver o "lado luminoso".
A claridade, a luminosidade, são efeitos quase holograficamente palpáveis em diversos pontos ao longo do álbum, como o piano em "Cluster One", ou as introduções de "Take It Back" e "Coming Back To Life".
É lindo. Absolutamente lindo. Não encontro melhor maneira de descrever.

Esta capacidade que Gilmour e Wright possuem, em esculpir imagens exclusivamente com os seus instrumentos, confere a "The Division Bell" um predicado ímpar: o álbum consegue comunicar uma mensagem ao ouvinte, sem que para isso tenha que utilizar a palavra.
Recordo que a lírica sempre foi uma parte de extrema importância na música dos Pink Floyd até à saída de Roger Waters. Os álbuns tinham sempre uma mensagem muito forte, expressa pela escrita de Waters, quer de crítica da sociedade ("The Dark Side Of The Moon" e "Animals"), quer de crítica da indústria ("Wish You Were Here"), quer de crítica política ("Animals" e "The Final Cut"), quer mesmo da crítica do comportamento humano ("The Wall").

O reverso da medalha é que, com o tempo, a preocupação com a mensagem foi-se sobrepondo à atenção com a música. O domínio de Waters foi crescendo, os álbuns foram tornando-se mais líricos e as tensões criadas por estas mudanças, juntamente com uma série de outros factores (que dariam para vários artigos diferentes), levariam à sua saída da banda em 1984.
Com isto, se perguntarem a alguém como o meu pai, que não percebe a língua inglesa, a opinião sobre "The Division Bell" e, por exemplo, "The Final Cut" (o mais lírico de todos os álbuns dos Pink Floyd), ele dir-vos-á sem hesitações que adora o primeiro e não tem grande simpatia pelo segundo.
Porquê? A resposta está na preocupação com a música, recuperada pelo renascimento da dupla Richard Wright (expulso da banda depois da digressão de "The Wall") / David Gilmour.

Em "The Division Bell", as temáticas deixam de ser a alienação individual, ou a alienação com a sociedade. Aqui fala-se de temas simples e que nos tocam a todos: a vida, o caminho que percorremos, o amor e a importância da comunicação como a chave da interligação dos elementos anteriores. Nesta mudança de direcção, teve grande importância o input lírico da então namorada de David Gilmour, a novelista londrina Polly Samson (casados desde a digressão de "The Division Bell"), o que não agradou a muitos fãs dos Floyd.
Quanto a mim, nada disto me faz grande celeuma. O que em "The Division Bell" se perde em eloquência, ganha-se em música.
E isso não é pouco.

"The grass was greener..."

O tema que aqui fica é o épico "High Hopes", cujo vídeo é, por si só, uma obra de arte.
O tema abre com os famosos sinos de igreja, intercalados pelo piano de Richard Wright. Curiosamente, o efeito sonoro dos sinos foi retirado de um tema muito anterior dos Pink Floyd: "Fat Old Sun", do álbum "Atom Heart Mother de 1970.

"High Hopes" é o tema de despedida dos Pink Floyd. É um olhar sorridente sobre o passado, com vista ao que o futuro pode trazer. É o epílogo perfeito para o brilhante reportório dos Pink Floyd, com um solo final que parece propagar-se eternamente, no tempo e no espaço. Que é exactamente o que eu espero que aconteça com a música dos Pink Floyd.

"Forever and ever..."

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Bon Jovi - "Livin' On A Prayer"

"Ooooohhh We're half way there! Oaaaahhh ha! Livin' on a prayer!!"



O tímido sucesso dos dois primeiros álbuns dos Bon Jovi ("Bon Jovi" e "7800° Fahrenheit") deixaram a banda reticente quanto à direcção que escolheram para a sua carreira. Para o 3º álbum, decidiram fazer uma abordagem diferente: trouxeram para o estúdio Desmond Child (escritor e produtor Pop/Rock profissional e hoje amigo de longa data da banda), escreveram aproximadamente 30 temas e deram-nos a conhecer a um grupo de adolescentes da zona.
A opinião do público alvo principal dos Bon Jovi, ajudou a banda a perceber qual a direcção a seguir, mas nem por isso o trabalho doravante foi fácil.

Neste processo de decidir o que sai e o que fica, o mais curioso é que Jon Bon Jovi queria deixar "Livin' On A Prayer" de fora de "Slippery When Wet", convencido que o tema não tinha qualidade suficiente para figurar no álbum. O guitarrista Richie Sambora tinha outra opinião e acreditando que os Bon Jovi tinham nas suas mãos um potencial êxito, levou a banda a re-gravar o tema, desta vez usando a talk-box e criando o hoje lendário riff de "Livin' On A Prayer".
Em boa hora Richie convenceu a restante banda do potencial de "Livin' On A Prayer", uma vez que a gravação original (que se pode ouvir em "100 000 000 Bon Jovi Fans Can't Be Wrong") deixa mesmo muito a desejar:



...e porque o resultado final é o clássico que todos conhecemos.
Cumprindo a profecia de Richie Sambora, "Livin' On A Prayer" foi lançado como o 2º single de "Slippery When Wet" e facturou o 2º nº 1 consecutivo nas tabelas americanas para os Bon Jovi, depois de "You Give Love A Bad Name".
O single foi um sucesso de proporções colossais, tornando-se no ex-libris dos Bon Jovi, com rodagem contínua nas rádios e nas discotecas durante os 25 anos que se seguiram e atingindo o lugar cimeiro das tabelas em todo o Mundo, durante várias vezes neste período.


O sucesso de "Livin' On A Prayer" é de tal forma consistente no tempo, que os Bon Jovi se deram ao luxo de replicar em 1999, quando gravaram uma recriação deste tema, sob a forma do smash hit "It's My Life", lançado no ano seguinte. O tema do álbum "Crush" apresenta indisfarçáveis paralelismos, sendo que até o riff da Talk-Box é o mesmo...

Tal como em tantos outros temas dos Bon Jovi, em "Livin' On A Prayer" as onomatopeias assumem uma importância lírica ao nível da letra. A introdução na talk-box, os "Ooooohhh!" e "Oaaaahhh ha!" do refrão... são estes os grandes hooks do tema. E é nada menos do que maravilhoso.
Quando estamos dentro do carro, cansados no fim de um dia, e aparece "Livin' On A Prayer" na rádio, gritar a plenos pulmões o refrão do tema chega a ser terapêutico. Isto é apenas um exemplo do brutal poder anímico da música, concretamente deste "Livin' On A Prayer".

"Livin' On A Prayer" é provavelmente um daqueles temas que TODOS conhecem, em TODO o Mundo. A sério.
Acredito piamente que se encontrarmos um ermita budista no Tibete, alguém que pode nem sequer saber quem é Obama, e se lhe falarmos em Bon Jovi, ele nos vai responder com o inconfundível "Uooh Uooh" da talk-box de Richie Sambora.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Richard Wright - "Breakthrough"

"By HATING more, you're FEELING more and that's how you get caught"



De todas carreiras a solo, de todos os membros Pink Floyd, o meu tema preferido é de... Richard Wright.

Para quem desconhece o nome (shame on you!), Richard Wright foi o brilhante teclista de sempre dos Pink Floyd. Em toda a carreira dos Pink Floyd, Wright só não participou no álbum "The Final Cut", uma vez que tinha sido despedido por Waters durante a gravação de "The Wall", por não estar a "contribuir musicalmente" para a banda segundo os padrões de Waters. Obviamente que a isto não terão ajudado os problemas com droga que o começavam a atormentar nesta altura... Até à sua saída, Wright ainda acompanharia a lendária digressão de promoção a "The Wall".

Como o próprio Wright confirmaria uns anos mais tarde, a sua falta de ideias durante as sessões de "The Wall" deveu-se também, em grande parte, à gravação do seu primeiro álbum a solo "Wet Dream" em 1978, um ano antes.

O ex-teclista dos Pink Floyd teve uma carreira a solo muito curta, com apenas dois álbuns em nome próprio: em 1978, depois do animicamente arrasador "Animals" e respectiva digressão (brevemente falarei disto), Wright escreveu, gravou e produziu o superlativo "Wet Dream", um álbum fabuloso de forte carga instrumental; em 1996, depois da regeneração artística de Wright em "The Division Bell" (Wright andara perdido nos anos 80 com problemas familiares e lutas com problemas de droga), este lançou o seu 2º e último álbum "Broken China".

É precisamente de "Broken China" que é retirado este fantástico "Breakthrough".
Este tema foi considerado para inclusão em "The Division Bell", mas segundo David Gilmour não foi fechado a tempo. Ao ser rejeitado para os Pink Floyd (eventualmente em favor do também genial "Wearing The Inside Out"), Richard Wright usou-o para o seu álbum "Broken China".
Para a gravação em disco de "Breakthrough", Wright chamou o guitarrista de digressão dos Pink Floyd Tim Renwick e convidou Sinéad O'Connor para a voz. O resultado é bom mas, na minha opinião, muito pouco satisfatório quando comparado com a versão que aqui apresento.

Esta versão foi gravada ao vivo no Royal Festival Hall em 2002, num concerto de David Gilmour inserido numa mini-digressão semi-acústica a solo. Wright apareceu como convidado especial para este tema e ambos tocaram aquele que poderá ter sido o arranjo preparado nas sessões de "The Division Bell" para "Breakthrough", alguns anos antes. As imagens desta reunião podem ser vistas no DVD "David Gilmour in Concert", que eu recomendo vivamente!


Voltando ao princípio, reitero que "Breakthrough" é o meu tema preferido das carreiras a solo de todos os Floyd.
Este é um tema que fala sobre a redenção, sobre a procura infrutífera de um lugar seguro, ao abrigo da dor e da desilusão... Só derrubando o muro, retirando o capacete emocional e expondo-nos às contingências da dor é que podemos viver em pleno.
É uma visão que subscrevo.
"Breakthrough" pretende desta forma ser um tema psicologicamente revigorante, uma vez que todos os que andam na vida de coração aberto sabem que, após várias quedas no vazio, não é fácil manter o queixo levantado...

"You die more times than anyone, but there's still no place to fall"

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Noel Gallagher's High Flying Birds - "The Death Of You And Me"

"Let's run away together you and me, forever we'd be free
Free to spend our whole lives running, from people who would be the death of you and me"



Já aqui falei dos Beady Eye, o novo projecto de Liam Gallagher e dos restantes membros dos Oasis, depois da separação da banda, na sequência da saída de Noel. Falei, mas falei ainda muito pouco, uma vez que adorei "Different Gear, Still Speeding", até ao momento um dos meus álbuns preferidos de 2011.

Chegou então agora a hora de falar da nova vida de Noel Gallagher, também conhecido como "o Chefe".
Depois da implosão dos Oasis em 2009, consequência de uma já célebre discussão em Paris entre os irmãos Gallagher, em que Liam se serviu de uma guitarra para tentar atingir Noel, qual lenhador que usa o machado num pinheiro, Liam e Noel seguiram caminhos diferentes.

Liam desdobrou-se em entrevistas e mensagens no Twitter, formou os Beady Eye e estes rapidamente gravaram e lançaram o seu primeiro álbum. Ao contrário de Liam, Noel resguardou-se na discrição que achou necessária para decidir o que fazer a seguir. Mas nem por isso o tempo de Noel foi menos produtivo...

No início deste mês, Noel deu uma conferência de imprensa para anunciar o lançamento não de um, mas de dois (!!!) novos álbuns: ainda este ano, o álbum de estreia dos "Noel Gallagher's High Flying Birds" - a sua nova banda de acompanhamento - e para o ano, um álbum de colaboração com os Amorphous Androgynous.

"Noel Gallagher's High Flying Birds" deverá ser um álbum em linha de continuidade com a direcção que Noel já seguia nos tempos finais dos Oasis (por exemplo, com "Falling Down" ou "The Importance Of Being Idle"), com mais influências electrónicas e psicadélicas na sua música. Contudo, Noel já avisou que "só lá para a 6ª faixa" é que há o primeiro solo de guitarra, por isso podemos esperar algo de, no mínimo, diferente.


Quanto ao projecto com os Amorphous Androgynous, aí sim devemos ter Noel a fazer um mergulho profundo na electrónica, o que ele já ameaça fazer desde a colaboração com os The Chemical Brothers em 1997 para o single "Setting Sun", que atingiu o 1º lugar nas tabelas britânicas.

Para já, venha então o "Noel Gallagher's High Flying Birds"!
Pessoalmente, tenho as expectativas nos píncaros para o primeiro álbum do "Chefe", como não me lembro para nenhum outro álbum recentemente. Aqui, Noel pôde finalmente trabalhar para si, sem se preocupar com os standards do que os fãs dos Oasis esperam. Escolher as melhores músicas (já todos conhecemos "Stop The Clocks" e "Record Machine"), fazer arranjos ainda mais psicadélicos e, quem sabe, surpreender-nos a todos com um álbum seminal. A ver vamos.

"Noel Gallagher's High Flying Birds" foi produzido pelo próprio Noel Gallagher e Dave Sardy (produtor dos dois últimos álbuns dos Oasis) e chegará às lojas a 17 de Outubro deste ano. O álbum contará com 10 temas:

"Everybody's On The Run"
"Dream On"
"If I Had A Gun"
"The Death Of You And Me"
"(I Wanna Live In A Dream In My) Record Machine"
"AKA...What A Life!"
"Solider Boys And Jesus Freaks"
"AKA...Broken Arrow"
"(Stranded On) The Wrong Beach"
"Stop The Clocks"


Antes da chegada do álbum, a notícia do dia é a revelação de "The Death Of You And Me", o single de avanço de "Noel Gallagher's High Flying Birds" e por aqui já podemos ter a noção que não se deve fazer grandes previsões para este álbum.
A primeira impressão de "The Death Of You And Me"? Poderia ser um tema clássico dos Oasis, com a diferença que, ao invés de termos um solo de guitarra, temos um solo de... trompetes e saxofones!
De resto, os hooks da música do Noel estão todos lá. Depois de ouvir o tema pela 2ª vez, fiquei automaticamente com ele na cabeça e esse é o maior elogio que ainda posso fazer ao Noel, ao fim de tantos anos a seguir a sua carreira.

terça-feira, 19 de julho de 2011

Grizzly Bear - "I Live With You"

"Return... Don’t put me on! Return... Don’t make me beg!"



Foi mais uma das surpresas de 2009. O álbum "Veckatimest" dos Grizzly Bear, o terceiro da sua carreira, conseguiu deixar-me com a estranha sensação de ouvir música dos anos 60 em 2009. Ou será música de 2009 nos anos 60?

Para quem não conhece, os Grizzly Bear são uma banda de Brooklyn, composta por Edward Droste e Daniel Rossen nas vozes, guitarras e teclas, Chris Taylor no baixo e Christopher Bear na bateria.

Classificar os Grizzly Bear... Isso já se torna um desafio.
É seguro rotular os Grizzly Bear de Alternativo, ou Indie. Mas atendendo às óbvias influências do psicadelismo dos anos 60 em "Veckatimest", à fraca proeminência de guitarras e ao uso dos sintetizadores, eu diria que a banda se situa algures na cena do Pop Psicadélico Moderno. O que quer que isso signifique.
Não que isto de rótulos tenha muita importância, até porque já ouvi chamarem os Grizzly Bear de muita coisa, entre as quais Chamber Pop Music e isso é que eu gostaria que decifrassem...

"Veckatimest" é um álbum complexo, obsessivamente meticuloso nos arranjos e na sónica. É um álbum carregadinho de ideias; algumas novas, outras nem por isso, mas a maioria conhece aqui uma nova e única forma de execução.
As decisões estratégicas de produção põem este álbum à partida à frente da maioria das bandas dos tempos que correm:
Em tempos em que as gravações são feitas quase exclusivamente de forma digital, os Grizzly Bear decidiram dar um passo atrás na tecnolgia e gravar em analógico.
Em tempos em que o som é comprimido para ficar bem em mp3, em que as partes calmas são altas e as partes altas são distorcidas, os Grizzly Bear decidiram dar primazia à dinâmica e apresentar um disco com um tratamento sónico magistral.

Por tudo isto (e não só), facilmente se percebe que "Veckatimest" é um álbum que tenta ser diferente. Eu diria que o consegue com brilhantismo.
Mas isso não chega aos Grizzly Bear. A atenção ao detalhe mostra que o verdadeiro objectivo do álbum é tentar ser perfeito. Eu diria que, pelo menos na produção, anda lá perto.


É assim que, logo à partida, pela forma de gravar, pela sonoridade morna das fitas e pela cuidada engenharia sonora, os Grizzly Bear primam pela diferença.
Louvo-os por isso.
Mas não é tudo. Nem só de brilhante produção vive "Veckatimest". Detrás de todo o folclore por cima de cada tema está uma melodia. Uma canção que poderia ser também tocada com uma guitarra acústica.
Em "Veckatimest", a complexidade dos arranjos não serve para esconder o vazio das melodias, mas sim para as enriquecer.

Hoje fica aqui o meu tema preferido de "Veckatimest": este "I Live With You", um tema repleto de texturas psicadélicas, que parecem fazer um cruzamento entre os Zero 7 e os Pink Floyd em 1967.
Pode parecer estranho e talvez até arbitrário, mas os elementos estão lá e esta é a melhor descrição que eu consigo formular para a caracterização de música Pop... Electrónica... Psicadélica.

domingo, 17 de julho de 2011

The XX - "Infinity"

"I can't give it up to someone else's touch, because I care too much"




Um dos álbuns que mais me surpreendeu em 2009 foi o homónimo álbum de estreia dos "The XX".
"XX" lançou a banda directamente para a linha da frente da cena Indie, dando-lhes uma posição de destaque nos mais conceituados festivais em todo o Mundo, coleccionando diversos prémios e posicionando-se mesmo no topo de diversas listas dos melhores álbuns daquele ano.

Os "The XX" são um quarteto londrino formado em 2005, que passou a trio depois da saída do seu teclista no final de 2009, pouco depois do lançamento do primeiro álbum da banda.
Defrontando as normais limitações de recursos de quem está a começar, os "The XX" gravaram o seu primeiro trabalho numa pequena garagem (segundo a banda: um "estúdio do tamanho de uma casa de banho"), num arrepiante ambiente durante várias sessões pela madrugada fora.

O resultado foi o meticuloso "XX", um álbum arguto que invoca uma ímpar aura de sensualidade e tranquilidade. A origem do nome do álbum deve-se ao facto de que todos os membros da banda tinham 20 anos, aquando do seu lançamento.


Para mim, os "The XX" foram uma agradável surpresa, que serviu de banda sonora a muitas tardes de Verão. O álbum cai num registo que aprecio bastante, oferecendo um tipo de música relaxante numa onda de Chill Out que me sugere, por exemplo, a música dos Zero 7. O meu tema preferido de "XX" é este fabuloso "Infinity", um tema que apresenta uma tonalidade de guitarra a fazer lembrar "Wicked Game" de Chris Isaak.

Neste momento, os "The XX" estão em estúdio a gravar o 2º álbum, esperando-se novidades para 2012.

terça-feira, 12 de julho de 2011

Pink Floyd - "The Narrow Way - Part 3"

"You know the folly was your own, but the force behind can't conquer all your fears"



Muito antes dos milhões de discos vendidos, dos concertos em estádios e da adoração internacional, a "formação clássica" dos Pink Floyd (Roger Waters, David Gilmour, Nick Mason e Richard Wright) andou perdida durante muito tempo, na procura de uma sonoridade própria.

Esta demanda por uma direcção teve origem na saída de Syd Barrett, a meio da gravação do segundo álbum da banda "A Saucerful Of Secrets", devido aos seus problemas com o uso de drogas. Syd era a força criativa da banda e o autor da esmagadora maioria dos temas dos Pink Floyd. A sua saída foi colmatada com a entrada da David Gilmour, que se tornaria mais tarde num ícone da guitarra, mas até lá chegar, as coisas não foram nada fáceis...

Depois das dificuldades em terminar "A Saucerful Of Secrets" sem Syd Barrett e da muito sofrível banda sonora para o filme "More", os Pink Floyd decidiram mergulhar no experimentalismo com o excêntrico "Ummagumma".

"Ummagumma" foi lançado em 1969 como um álbum duplo: um disco ao vivo e um disco em estúdio. No álbum ao vivo, os Pink Floyd davam uma amostra do espectáculo avant-garde que faziam na época, com largas dezenas de minutos de improviso todas as noites. Versões de 25 minutos de "A Saucerful Of Secrets", ou versões de 15 minutos de "Careful With That Axe, Eugene" figuravam habitualmente num concerto dos Pink Floyd.

O problema estava mesmo no disco de estúdio. Os Floyd estavam sem ideias e depois de gravarem o tema "Embryo" (uma composição conjunta que ficaria guardada na penumbra até ao seu lançamento na compilação americana "Works" de 1983), decidiram que o disco de estúdio devia ser formado por 4 composições individuais, uma de cada membro dos Pink Floyd.

E assim foi.
Largados ao isolamento das suas ideias, sem saberem bem o que fazer e para onde ir, cada membro dos Pink Floyd compôs um tema novo para o disco de estúdio de "Ummagumma", formando aquele que é certamente o mais bizarro álbum dos Pink Floyd.
Considerado por muitos o pior álbum dos Pink Floyd, "Ummagumma" vive a difícil existência de ser o fruto de um experimentalismo desenfreado e sem qualquer direcção.

Mas isto não significa que o disco de estúdio de "Ummagumma" não tenha os seus momentos. Nomeadamente, a composição acústica de Roger Waters "Grantchester Meadows", mas principalmente este fabuloso "The Narrow Way" do recém-chegado David Gilmour.

Com a banda à procura do seu rumo, David Gilmour terá dado aqui o primeiro passo em direcção ao seu estilo único, hoje em dia imediatamente reconhecível. Mais que isso, terá dado até o primeiro passo na direcção que os Pink Floyd seguiriam a partir daí (já no álbum seguinte "Atom Heart Mother") e que iriam aperfeiçoar até ao álbum "Meddle" de 1971.

"The Narrow Way" está dividido em 3 partes: a primeira parte é uma fabulosa introdução acústica, com elementos spacey de slide guitar; a segunda é um arrepiante "crescendo" eléctrico, com mais efeitos psicadélicos ("The Waiting Room" dos Genesis parece retirado daqui); mas a terceira... Bem, é na terceira parte que David Gilmour finalmente se foca, deixa o noodling do psicadelismo e decide compor uma canção.

O resultado? Nada menos que fabuloso.



Pouco ou nada antes de "The Narrow Way" parecia apontar para aqui. Por isso mesmo, a importância histórica deste tema é imensa para os Pink Floyd. David Gilmour toca todos os instrumentos em "The Narrow Way", mas curiosamente, é o próprio quem desconsidera o seu trabalho, referindo-se ao tema como o fruto do "desespero da falta de ideias".
Talvez isso tenha sucedido, mas se o resultado da falta de ideias de David Gilmour é algo como "The Narrow Way", é fácil entender que este seja o mesmo homem que viria a criar as partes de guitarra de "Shine On You Crazy Diamond", "Comfortably Numb", "Time" e tantos... tantos outros.