Antes de se tornar numa sensação das rádios mainstream na década de 90, somando êxitos atrás de êxitos, os R.E.M. eram uma sólida banda de culto na cena alternativa americana. Os álbuns "Murmur", "Reckoning" e "Document" são ainda hoje, para os puristas, onde se pode encontrar os melhores trabalhos da carreira dos R.E.M..
O primeiro cheiro do sucesso mainstream para a banda foi mesmo obtido com o álbum "Document" de 1987, com os singles "It's the End of the World as We Know It (And I Feel Fine)" e este fabuloso "The One I Love".
O significado de "The One I Love" é frequente mal interpretado, devido à linha: "This one goes out to the one I love", levando muitas pessoas a pensar que se trata de uma canção de amor.
Como o próprio Michael Stipe já confessou, "The One I Love" está longe de ser uma canção de amor. Segundo o próprio, este é uma tema "incrivelmente violento", sobre uma relação nefasta, em que uma das partes se aproveita do outra e esta deseja a morte (o "fogo") à primeira.
Esta dicotomia da escuridão sob uma capa de um tema de amor faz de "The One I Love" um dos temas mais fascinantes dos R.E.M., com certeza um dos meus preferidos. Porém, na minha opinião, ainda faltava qualquer coisa para chegar ao nível atingido uns anos mais tarde com "Losing My Religion". Mas o céu estava já ali ao virar da esquina para os R.E.M....
A poucos dias do muito antecipado concerto dos Foo Fighters no festival "Alive", deixo aqui o grande vídeo de "The Pretender". "The Pretender" foi o single de avanço do álbum "Echoes, Silence, Patience And Grace" (grande nome para um álbum) de 2007 e tornou-se um dos temas chave dos Foo Fighters. O álbum também teve grande sucesso, entrando directamente para o topo das tabelas britânicas.
"The Pretender" é, provavelmente, o meu tema preferido dos Foo Fighters. Desde a introdução melódica, a entrada da bateria, ou a explosão no refrão... Todas as peças parecem cair no sítio certo. Mas é a progressão de acordes no refrão que me atinge sempre que ouço este tema. Fabuloso.
Mais do que isso, no que toca à lírica, este tema parece cair que nem uma luva naquela forma raivosa de cantar característica de Dave Grohl.
Nas tabelas americanas, só "Best Of You" e "Learn To Fly" obtiveram maior sucesso que "The Pretender". Curiosamente, são estes os meus 3 temas preferidos dos Foo Fighters. Não sendo propriamente um fã dos Foo Fighters, noto com agrado a evolução que eles tiveram como banda ao longo dos anos. Ao fim de mais de 15 anos, já levam uma respeitosa carreira, solidificando continuamente a sua posição no panorama do Rock.
O álbum mais recente é deste ano e chama-se "Wasting Light". É este o álbum que traz os Foo Fighters a Portugal na próxima semana. Com as expectativas em alta, lá estarei no concerto para ver o que têm para dizer com o seu último trabalho e também ouvir todos os clássicos.
"It is a lovely thing that we have... the animal instinct"
Hoje recuamos até aos late 90's para ouvir "Animal Instinct", tema do álbum "Bury The Hatchet" dos The Cranberries, a banda de Dolores O'Riordan. "Bury the Hatchet" que conta com uma enigmática capa, característica do génio Storm Thorgerson, o mesmo que fez todas aquelas memoráveis capas para os álbuns dos Pink Floyd.
The Cranberries tiveram grande sucesso no início dos anos 90, com singles como "Linger" e "Zombie". Embora a banda tivesse um som perfeitamente integrado no que se ouvia na rádio dos anos 90, os The Cranberries entregavam algo mais que a generalidade das outras bandas Pop, com uma profundidade e uma escuridão na sua música e respectivas letras.
Aquando do lançamento de "Bury The Hatchet", o sucesso mainstream da banda já era passado e o navio dos anos 90 já estava a terminar a sua viagem, mas foi aqui que, na minha opinião, eles atingiram o seu ponto alto, com este "Animal Instinct". Mais uma vez, a ideia da profundidade na música e na letra aplica-se, com uma particular comunhão entre elas.
O single não teve sucesso no UK, mas teve grande em Portugal. E ainda bem.
O vídeo conta história de uma mãe em espiral descendente, que tenta tudo para recuperar os seus filhos depois de estes lhe serem retirados pelo tribunal. Nem que para isso se torne uma fugitiva. "Animal Instinct" indeed...
Destaque também para o solo no fim. Numa década onde, com raras excepções, os guitarras ficaram com "medo" de fazer solos, principalmente para temas destinados a singles e à rádio, este solo é absolutamente sublime.
"There's nothing else to lose, there's nothing else to find"
O pontapé de saída para o Verão aqui no blog é dado por "Hanging by a Moment" dos Lifehouse.
Hoje recuamos ao início dos anos 00 para um dos muitos grandes temas Soft-Rock que povoavam as ondas de rádio da época. Confesso que não sou muito revivalista da última década, uma vez que a maioria da cultura que consumia (música, filmes e até televisão) não era actual e por isso não me identifico com o que se foi passando nos mass media dos anos 00.
No entanto, vinha eu há uns dias da praia e surge este tema na rádio.
Não pude deixar de sorrir e de me transportar para as quentes tardes do Verão de 2000, a trabalhar e a ouvir a boa música que passava na rádio. Este tema dos Lifehouse é um bom exemplo disso. É um tema Soft-Rock despretensioso, mas que cumpre a sua função. Certeiro.
"Hanging by a Moment" foi o single de estreia dos Lifehouse, promovendo o seu primeiro álbum "No Name Face". O tema teve um sucesso retumbante nos Estados Unidos, atingindo o 1º lugar em diversas tabelas da Billboard e foi mesmo nomeado o 25º Single Rock mais bem sucedido de sempre pela própria Billboard.
O problema é que, depois de um início que excedeu todas as expectativas, a partir daqui foi sempre a descer para os Lifehouse...
Ao ler as novidades de hoje no Facebook, cruzei-me com este brilhante artigo no fantástico blog "The Second Disc" e assim dei conta que fez ontem 25 anos que os Wham! deram o seu último concerto (apropriadamente chamado "The Final Concert") para um esgotado Estádio do Wembley, com uma assistência entre as 80 e as 100 mil pessoas. Estávamos a 28 de Junho de 1986.
Desde então que os fãs dos Wham! esperam ansiosamente por algum documento desta noite histórica, mas essa vontade acaba invariavelmente esbarrada na casmurrice de George Michael, que se recusou a lançar qualquer registo ao vivo ao longo da sua carreira. As únicas excepções foram o vídeo "Wham In China: Foreign Skies" de 1986 (nunca lançado em DVD) e o DVD/Blu-Ray "Live In London" de 2009, gravado em 2008 no Earls Court. GM terá mesmo afirmado que este seria o último documento ao vivo que ele lançará.
Muito oportunamente, o blog sugere uma edição de luxo para o álbum de despedida dos Wham!, também apropriadamente baptizado de "The Final" ("Music From The Edge Of Heaven" nos EUA). A sugestão indica que o álbum se deve fazer acompanhar de um registo áudio e/ou vídeo do "The Final Concert" no Estádio do Wembley. Embora duvide que tal seja possível, devido à irredutibilidade de George Michael, apoio totalmente a sugestão!
Apenas acrescento que se deve completar o alinhamento do álbum com as correspondentes versões 7'' e 12'' dos temas, sempre que tal seja aplicável.
É por isso altura de recordar aquele que foi promovido como o single de despedida dos Wham! em 1986 e que é também o meu tema preferido da banda: o vibrante "The Edge Of Heaven". O single acompanhou a álbum "The Final" e foi um tremendo sucesso em todo o mundo, atingindo naturalmente o 1º lugar no Reino Unido.
Aliás, o registo dos Wham! no Reino Unido é verdadeiramente avassalador: de 1982 a 1986, os Wham! lançaram 9 singles (não contando com "Club Fantastic Megamix") e todos, repito TODOS, entraram para o Top 10 das tabelas britânicas, sendo que 4 deles chegaram ao #1. Impressionante!
"The Edge Of Heaven" é um tema upbeat, com mais espaço para a guitarra de Andrew Ridgeley (ou que ele finge tocar) que o normal nos Wham!, o que dá um travo mais agressivo ao tema, em relação ao seu restante reportório.
Na minha opinião, foi desta fase da carreira de George Michael, que saíram os seus melhores temas pop, marcados pela irreverência e despreocupação da sua juventude. "The Edge Of Heaven", "Freedom" (o original), "I'm Your Man", "Everything She Wants"... são apenas alguns exemplos que provam nos temas upbeat, os Wham! são imbatíveis.
Quando seguiu uma carreira a solo e juntou, entre outras, as influências Jazz à sua música, George Michael tornou-se indiscutivelmente um artista mais maduro e mais completo, mas nalguns aspectos, discutivelmente melhor.
Nos anos 90, George Michael esteve "quase lá" com "Too Funky", "Fastlove" e "Outside", temas liricamente muito mais evoluídos, mas sem aquela alegria dos temas pop dos Wham!.
Quanto a "The Edge Of Heaven", este acabaria por não ser o último single dos Wham! nalguns países, cabendo essa honra ao fabuloso cover dos Was (Not Was) "Where Did Your Heart Go?", com sucesso bem mais reduzido.
"The child is grown, the dream is gone... I have become comfortably numb"
Volvidas 24 horas, ainda estou siderado com o espectáculo "The Wall Live" de Roger Waters em Lisboa.
Faltam-me as palavras. Todos os superlativos me parecem redutores. A língua portuguesa é muito rica, mas não sei se o suficiente para descrever o que presenciei ontem no Pavilhão Atlântico. E mesmo tendo essa riqueza, seria preciso chamar um Fernando Pessoa para obter uma imagem fiel do que se passou.
De forma muito simples e directa, afirmo que "The Wall Live" foi o maior espectáculo Rock que já assisti em toda a minha vida. Ponto. Pode não ter sido o melhor concerto (aí Roger Waters terá que dar o flanco a outro Pink Floyd - David Gilmour ao vivo no Grand Rex em Paris ainda é o concerto da minha vida), mas ficou muito perto disso. Mas em termos de espectáculo, foi simplesmente avassalador. Porcos a voar (tive um porco gigante diante dos meus olhos durante vários minutos), aviões a despenhar-se, guitarristas em gruas, pirotecnia, projecções em vídeo e o muro... o muro! Um muro físico em frente ao palco, escondendo a banda da audiência durante metade do concerto. Sublime.
Tudo isto acompanhado da maravilhosa música de um dos meus álbuns preferidos de sempre: "The Wall", o qual já abordei ontem.
Como referi, ainda estou a digerir tudo o que vi e por isso ainda me faltam as palavras. Pode ser que dentro de algum tempo consiga estruturar um texto com o retrato do que foi o espectáculo "The Wall Live".
Para já, enquanto procuro recuperar o fôlego do carrossel de emoções da última noite, deixo aqui "Comfortably Numb" ao vivo na mítica digressão original de "The Wall", em 1980/1981. Esta digressão terá mesmo dado prejuízo, tal a extravagância do conceito e a dificuldade de aplicação e rentabilização naquela época.
A versão que aqui fica é assim uma mistura das gravações de "Comfortably Numb" ao vivo no Earls Court em Londres, nos dias 9 de Agosto de 1980 e 15 de Junho de 1981, figurando no álbum oficial "Is There Anybody Out There? The Wall Live 1980–81", que eu recomendo vivamente.
"Run to the bedroom, in the suitcase on the left you'll find my favorite axe"
Hoje chega a Lisboa aquele que é um dos maiores, se não o maior, espectáculo da História do Rock: a majestosa apresentação ao vivo do álbum "The Wall".
"The Wall Live" não é um espectáculo de divertimento qualquer. Não é bem disposto, não é alegre e não faz sorrir a plateia. A magia de "The Wall Live" está na profundidade da mensagem e na forma extravagante como é transmitida. Conteúdo e forma.
A forma traduz-se pela construção de um muro físico entre a audiência e o palco durante a primeira parte do espectáculo, sendo que a segunda parte é feita integralmente com o muro à frente da audiência.
O conceito pode ser estranho, mas tem muito que se lhe diga. Desde projecções em vídeo, lasers, bonecos insufláveis gigantes, porcos voadores, destruição de mobílias, guitarristas em gruas... Não faltam elementos para manter os sentidos do público em constante hiperactividade.
O conteúdo é de uma enorme complexidade, mas pode ser dissecado em diversos tópicos simples. O álbum é essencialmente uma obra auto-biográfica de Roger Waters, primeiro abordando os seus problemas de infância, com a dificuldade de adaptação à sociedade, mas principalmente devido à falta do seu pai, morto na 2ª Guerra Mundial, que nunca chegou a conhecer; e depois abordando os conflitos internos resultantes da adaptação à vida de uma estrela Rock.
Assim, "The Wall" retrata a vida de Pink, uma estrela Rock que tem uma infância muito perturbada, atormentada por professores tirânicos e uma mãe sobre-protectora. Quando adulto, Pink também sofre com a dificuldade para lidar com a pressão de ser uma estrela e as suas relações invariavelmente se dissolvem em rasgos de violência, infidelidade, ou abuso de drogas.
A forma que Pink tem de se defender de todos estes traumas é procurando o seu próprio isolamento, confinando-se ao abandono, à margem do resto do Mundo.
Metaforicamente, estes traumas são associados a tijolos no muro (bricks on the wall) e é assim que Pink vai construindo o muro ao longo da primeira parte de "The Wall".
A construção do muro é acompanhada pela espiral de auto-destruição de Pink (levando mesmo à auto-mutilação, vista no filme) e da sua descida à loucura, completa no fim da primeira parte de "The Wall", quando se despede do Mundo ("Goodbye Cruel World") e o último tijolo é colocado no muro. Pink pensa que finalmente está protegido.
Já do lado de lá do muro, isolado do Mundo, na segunda parte de "The Wall" a crise psicológica de Pink dispara. Pink é assolado por uma letargia ("Comfortably Numb") que o leva a um estado alucinogénico, onde se depara com as suas lutas internas de identidade. Isto culmina num julgamento no seu subconsciente ("The Trial"), onde Pink é acusado de má conduta por todos os personagens da sua vida, nomeadamente de mostrar sentimentos, um crime que teria cometido ao se expor ao Mundo. O veredicto do juíz é a queda do muro, que devolve Pink ao Mundo, completando o seu processo de luta interna.
Esta é a leitura mais linear do conteúdo do álbum. Na prática, a construção do muro é uma técnica usada por todos nós para a luta contra os males que nos atacam, os traumas que nos assolam, os problemas que nos atravessam... O processo de construção do muro/luta interna/queda do muro é algo por que todos já passámos, mais cedo ou mais tarde nas nossas vidas, qualquer que tenha sido o motivo. É uma metáfora com a qual todos nós nos podemos identificar.
É esta a força, é esta a magia de "The Wall".
Se é verdade que este princípio funciona na perfeição para descrever um processo pessoal, não é menos verdade que também pode ser associado a fenómenos bem mais palpáveis. O Muro de Berlim é um caso paradigmático disso mesmo.
Usado para isolar Berlim Leste do Mundo Ocidental, também aqui houve um processo de luta que levou à queda do muro.
Foi na ressaca da queda do Muro de Berlim, que em 1990 Roger Waters deu um concerto na "terra de ninguém", entre Potsdamer Platz e as Portas de Brandenburgo, onde tocou o álbum "The Wall" na íntegra, replicando os concertos da digressão original. Este foi um dos maiores concertos da História do Rock, com uma assistência de aproximadamente 350 000 pessoas e também um dos mais importantes, devido à carga emocional que transportou.
Aqui vemos a sequência "One Of My Turns" / "Don't Leave Me Now", um dos clímaxes do espectáculo, em que o protagonista da história chega ao ponto de ebulição, em rumo descendente na sua espiral de loucura. Uma interpretação magnífica de Roger Waters, completa com a destruição de mobílias de um quarto.
Não sei ao certo o que vou ver, mas é mais ou menos isto que espero no concerto daqui a pouco, quando Roger Waters trouxer a Lisboa a digressão "The Wall Live".