terça-feira, 22 de março de 2011

Pink Floyd - "Comfortably Numb" (Live at Earls Court '80/'81)

"The child is grown, the dream is gone... I have become comfortably numb"



Volvidas 24 horas, ainda estou siderado com o espectáculo "The Wall Live" de Roger Waters em Lisboa.
Faltam-me as palavras. Todos os superlativos me parecem redutores. A língua portuguesa é muito rica, mas não sei se o suficiente para descrever o que presenciei ontem no Pavilhão Atlântico. E mesmo tendo essa riqueza, seria preciso chamar um Fernando Pessoa para obter uma imagem fiel do que se passou.

De forma muito simples e directa, afirmo que "The Wall Live" foi o maior espectáculo Rock que já assisti em toda a minha vida. Ponto. Pode não ter sido o melhor concerto (aí Roger Waters terá que dar o flanco a outro Pink Floyd - David Gilmour ao vivo no Grand Rex em Paris ainda é o concerto da minha vida), mas ficou muito perto disso. Mas em termos de espectáculo, foi simplesmente avassalador. Porcos a voar (tive um porco gigante diante dos meus olhos durante vários minutos), aviões a despenhar-se, guitarristas em gruas, pirotecnia, projecções em vídeo e o muro... o muro! Um muro físico em frente ao palco, escondendo a banda da audiência durante metade do concerto. Sublime.
Tudo isto acompanhado da maravilhosa música de um dos meus álbuns preferidos de sempre: "The Wall", o qual já abordei ontem.

Como referi, ainda estou a digerir tudo o que vi e por isso ainda me faltam as palavras. Pode ser que dentro de algum tempo consiga estruturar um texto com o retrato do que foi o espectáculo "The Wall Live".
Para já, enquanto procuro recuperar o fôlego do carrossel de emoções da última noite, deixo aqui "Comfortably Numb" ao vivo na mítica digressão original de "The Wall", em 1980/1981. Esta digressão terá mesmo dado prejuízo, tal a extravagância do conceito e a dificuldade de aplicação e rentabilização naquela época.


A versão que aqui fica é assim uma mistura das gravações de "Comfortably Numb" ao vivo no Earls Court em Londres, nos dias 9 de Agosto de 1980 e 15 de Junho de 1981, figurando no álbum oficial "Is There Anybody Out There? The Wall Live 1980–81", que eu recomendo vivamente.

segunda-feira, 21 de março de 2011

Roger Waters - "One Of My Turns" / "Don't Leave Me Now" (Live in Berlin)

"...we came in?"
"Run to the bedroom, in the suitcase on the left you'll find my favorite axe"



Hoje chega a Lisboa aquele que é um dos maiores, se não o maior, espectáculo da História do Rock: a majestosa apresentação ao vivo do álbum "The Wall".
"The Wall Live" não é um espectáculo de divertimento qualquer. Não é bem disposto, não é alegre e não faz sorrir a plateia. A magia de "The Wall Live" está na profundidade da mensagem e na forma extravagante como é transmitida. Conteúdo e forma.

A forma traduz-se pela construção de um muro físico entre a audiência e o palco durante a primeira parte do espectáculo, sendo que a segunda parte é feita integralmente com o muro à frente da audiência.
O conceito pode ser estranho, mas tem muito que se lhe diga. Desde projecções em vídeo, lasers, bonecos insufláveis gigantes, porcos voadores, destruição de mobílias, guitarristas em gruas... Não faltam elementos para manter os sentidos do público em constante hiperactividade.

O conteúdo é de uma enorme complexidade, mas pode ser dissecado em diversos tópicos simples. O álbum é essencialmente uma obra auto-biográfica de Roger Waters, primeiro abordando os seus problemas de infância, com a dificuldade de adaptação à sociedade, mas principalmente devido à falta do seu pai, morto na 2ª Guerra Mundial, que nunca chegou a conhecer; e depois abordando os conflitos internos resultantes da adaptação à vida de uma estrela Rock.

Assim, "The Wall" retrata a vida de Pink, uma estrela Rock que tem uma infância muito perturbada, atormentada por professores tirânicos e uma mãe sobre-protectora. Quando adulto, Pink também sofre com a dificuldade para lidar com a pressão de ser uma estrela e as suas relações invariavelmente se dissolvem em rasgos de violência, infidelidade, ou abuso de drogas.
A forma que Pink tem de se defender de todos estes traumas é procurando o seu próprio isolamento, confinando-se ao abandono, à margem do resto do Mundo.
Metaforicamente, estes traumas são associados a tijolos no muro (bricks on the wall) e é assim que Pink vai construindo o muro ao longo da primeira parte de "The Wall".

A construção do muro é acompanhada pela espiral de auto-destruição de Pink (levando mesmo à auto-mutilação, vista no filme) e da sua descida à loucura, completa no fim da primeira parte de "The Wall", quando se despede do Mundo ("Goodbye Cruel World") e o último tijolo é colocado no muro.
Pink pensa que finalmente está protegido.

Já do lado de lá do muro, isolado do Mundo, na segunda parte de "The Wall" a crise psicológica de Pink dispara. Pink é assolado por uma letargia ("Comfortably Numb") que o leva a um estado alucinogénico, onde se depara com as suas lutas internas de identidade. Isto culmina num julgamento no seu subconsciente ("The Trial"), onde Pink é acusado de má conduta por todos os personagens da sua vida, nomeadamente de mostrar sentimentos, um crime que teria cometido ao se expor ao Mundo. O veredicto do juíz é a queda do muro, que devolve Pink ao Mundo, completando o seu processo de luta interna.

Esta é a leitura mais linear do conteúdo do álbum. Na prática, a construção do muro é uma técnica usada por todos nós para a luta contra os males que nos atacam, os traumas que nos assolam, os problemas que nos atravessam... O processo de construção do muro/luta interna/queda do muro é algo por que todos já passámos, mais cedo ou mais tarde nas nossas vidas, qualquer que tenha sido o motivo. É uma metáfora com a qual todos nós nos podemos identificar.
É esta a força, é esta a magia de "The Wall".


Se é verdade que este princípio funciona na perfeição para descrever um processo pessoal, não é menos verdade que também pode ser associado a fenómenos bem mais palpáveis. O Muro de Berlim é um caso paradigmático disso mesmo.
Usado para isolar Berlim Leste do Mundo Ocidental, também aqui houve um processo de luta que levou à queda do muro.

Foi na ressaca da queda do Muro de Berlim, que em 1990 Roger Waters deu um concerto na "terra de ninguém", entre Potsdamer Platz e as Portas de Brandenburgo, onde tocou o álbum "The Wall" na íntegra, replicando os concertos da digressão original. Este foi um dos maiores concertos da História do Rock, com uma assistência de aproximadamente 350 000 pessoas e também um dos mais importantes, devido à carga emocional que transportou.


Aqui vemos a sequência "One Of My Turns" / "Don't Leave Me Now", um dos clímaxes do espectáculo, em que o protagonista da história chega ao ponto de ebulição, em rumo descendente na sua espiral de loucura. Uma interpretação magnífica de Roger Waters, completa com a destruição de mobílias de um quarto.

Não sei ao certo o que vou ver, mas é mais ou menos isto que espero no concerto daqui a pouco, quando Roger Waters trouxer a Lisboa a digressão "The Wall Live".

"Isn't this where..."

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

George Michael - "Jesus To A Child"

"You smiled at me like Jesus to a child"



Hoje é dia de S. Valentim e por isso não é difícil adivinhar que o tema de hoje será uma balada. E quem melhor para nos trazer um balada do que o mestre desta arte? Falo obviamente de George Michael.

Desde "Careless Whisper" quando ainda estava nos Wham! (embora o tema seja creditado a solo), passando por "One More Try" ou "Kissing A Fool" em "Faith", até este "Jesus To A Child" em "Older", são inúmeros os exemplos de grandes baladas que George Michael foi escrevendo ao longo da sua carreira. George nunca se limitou a uma fórmula, escrevendo baladas em diversos registos diferentes e assim mostrando a sua capacidade como escritor Pop.

Só no lote que referi, temos aromas de Jazz em "Kissing a Fool", da 80's Pop em "Careless Whisper" (aquele saxofone...), do Soul em "One More Try", ou da Bossa Nova neste "Jesus To A Child". O espectro de George é impressionante.

"Jesus To A Child" foi lançado como o single de avanço do álbum "Older" em 1996, entrando directamente para o nº 1 da tabela no Reino Unido.


"Jesus To A Child" é sem dúvida um dos melhores trabalhos de George Michael. É uma ode a uma história de amor que foi feliz, mas que já terminou. E apesar disso, a marca que deixou foi de esperança.
Alegadamente dedicado ao seu falecido namorado brasileiro (daí a influência da Bossa Nova), o tema conta com uma interpretação delicada e ao mesmo tempo arrebatadora, numa das mais notáveis gravações vocais na História da Pop. Se dúvidas ainda houvesse sobre as capacidades vocais de George Michael (e depois de o vermos a cantar "Somebody To Love" no Tributo a Freddie Mercury em 1992, as dúvidas já eram poucas), elas foram desfeitas aqui. Lindíssimo.

"Oh the lover I still miss was Jesus to a child"

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Stereophonics - “Maybe Tomorrow”

"Maybe tomorrow I'll find my way home"



Confesso que não sou um conhecedor profundo da obra dos Stereophonics. Confesso até que, daquilo que conheço, a minha opinião é “isenta”, isto é, nunca ouvi nada que deliberadamente não gostasse, mas também nunca me levou a comprar um álbum. É um sentimento que tenho para com outras bandas Britpop/Britrock dos late 90's, como é o caso dos Travis, dos Suede, ou dos Pulp, só dando alguns exemplos. Gosto do material, mas nunca me apaixonei. Talvez com o tempo...


Com o tema “Maybe Tomorrow”, a história já é diferente.
“Maybe Tomorrow” foi lançado em 2003, como o 2º single do álbum "You Gotta Go There To Come Back" (chegou ao nº3 no Reino Unido) e conquistou-me desde a primeira audição.

O tema é excelente, em todos os níveis. Em primeiro lugar tem um grande solo de guitarra, o que desde o início dos anos 00 parece ser cada vez mais raro nas bandas Pop/Rock. É como que se os guitarristas se acobardassem e ganhassem medo de arriscar um solo num tema que possa passar na rádio. Aqui não há medo. Há um grande solo.
Liricamente, o tema retrata a luta interna de identidade que todos travamos em certo ponto na nossa vida: “Maybe tomorrow I’ll find my way home”. Quem é que não se identifica com isto?

A minha apreciação por “Maybe Tomorrow” cresceu ainda mais quando vi o filme “Crash”, onde o tema foi utilizado na cena final, assentando que nem uma luva na coda do filme.
Notem que o vídeo que aqui deixo é a versão completa do videoclip e por isso a música só começa lá para o segundo 1:30.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Gary Moore - "Still Got The Blues"

"So long, it was so long ago... but I still got the blues for you"



Esta semana foi-se mais um dos Grandes.
Foi no último Domingo que Gary Moore sofreu um ataque cardíaco fatal, quando se acabara de instalar num Hotel na Costa do Sol, em Espanha. Gary Moore tinha 56 anos e foi cedo. Nunca tive oportunidade de o ver...

Como sempre acontece com os grandes artistas, eles vêm e vão, mas deixam a sua marca. No caso de Gary Moore, essa marca ficou vincada em diversos lugares, em especial nos Thin Lizzy, uma das mais aclamadas bandas Glam Rock do Reino Unido.

No seu texto de tributo a Gary Moore, Roger Taylor - o baterista dos Queen - descreve-o como um "virtuoso", um "guitarrista dotado de uma velocidade estonteante" e "especialista em sequências de staccato". Um "Star Player".

Contudo, o grande predicado de Gary Moore era mesmo o Blues. Era algo que lhe estava no ADN. Influenciado por referências do Blues como John Lee Hooker ou B.B. King (com quem chegou a partilhar o palco), Gary Moore trouxe o Blues para o Rock, usando a lendária guitarra Gibson Les Paul.


Para mim, o seu momento alto foi em 1990, quando regressara a um registo mais próximo das suas raízes do Blues, com o tema (e álbum do mesmo nome) "Still Got The Blues".
Que balada. É impossível resistir ao riff deste tema.
"Still Got The Blues" será para sempre recordado, seja nos programas nocturnos da Rádio, seja nos anúncios da Televendas a compilações de Blues. É um tema que perdurará muito tempo e assim será com o seu nome.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

David Bowie - "Stay"

" "Stay" - that's what I meant to say or do something,
But what I never say is "stay this time"
I really meant to so badly this time...
'Cause you can never really tell when somebody wants something you want too"



Descobri o álbum no final do ano passado e já é um dos meus preferidos. De sempre.
Falo de "Station To Station", o álbum de 1976 de David Bowie, que marca a transição para uma nova fase da sua carreira. Aliás, se há uma caracterização que faz sentido para este álbum é precisamente dada pelo seu nome... "estação para estação". Bowie faz a viagem da "estação" do Soul de "Young Americans", para a "estação" da Electronica da Trilogia de Berlim ("Low", ""Heroes"" e "Lodger"). E que viagem...


"Station To Station" apresenta solidez notável, muito difícil de encontrar num álbum. Entenda-se por "solidez", uma bitola de qualidade que é estabelecida no início do álbum e que até ao fim nunca é violada.
Esta é uma característica muito rara, uma vez que, por uma razão ou por outra, normalmente todos os álbuns têm pelo menos um tema que destoa no nível de qualidade dos restantes. É verdade que "Station To Station" tem apenas 6 temas, o que não deixa muito espaço a lixo, mas isso não significa que este álbum deixe de ser um exercício de solidez assinalável.

Neste caso, "solidez" não significa falta de risco, ou falta de ambição, ou "mais do mesmo".
Muito pelo contrário.
Perdido entre as fases Soul e Electronica de David Bowie, o álbum "Station To Station" é um improvável cocktail explosivo de tudo isto, com uma pitada de Funk e um topping dado pelo regresso de uma forte componente Rock, ausente desde "Diamond Dogs". Esta componente Rock, conjugada com o estado emocional periclitante de Bowie, confere um edge único a este álbum.
É arrepiante ouvir a carga emocional que David Bowie imprime à sua voz em temas como "Wild Is The Wind" ou "Word On A Wing". O que ouvimos neste álbum não tem qualquer paralelo em toda a sua carreira.

Quanto à saudada forte componente Rock que falei, ela está presente em temas como "Station To Station" e este fabuloso "Stay", que se tornou num dos meus temas preferidos de David Bowie.
Com um riff electrizante (lembrem-se do riff Disco de "Another Brick In The Wall - Part 2", criado por David Gilmour uns anos mais tarde... Coincidências?), um "cheirinho" de Funk e um solo que parece perdurar para sempre, "Stay" é o momento Disco Rock do álbum e marca também aquele que é, na minha opinião, o ponto alto da colaboração do guitarrista Carlos Alomar com David Bowie. No vídeo em baixo, Bowie apresenta o Thin White Duke na TV americana com uma performance ao vivo deste tema:



Diversidade. Intensidade. Solidez. Qualidade. São estes os 4 predicados que caracterizam "Station To Station" e o colocam lá em cima, no restrito lote dourado da longa carreira de David Bowie.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

The Jacksons - "Blame It On The Boogie"

"I just can't... I just can't... I just can't control my feet!"



Em pleno auge da música Disco (a Disco Craze), o álbum "Destiny" dos The Jacksons foi lançado no ano de 1978, quando o filme "Saturday Night Fever" batia recordes de bilheteira e a sua banda sonora batia recordes de vendas. Para dar uma ideia do impacto do Disco na cultura popular em todo o Mundo, a banda sonora de "Saturday Night Fever" foi nº 1 nos EUA de Janeiro a Julho de 1978 e no nº 1 no Reino Unido de Maio a Setembro desse ano. Só nos EUA foram 24 semanas consecutivas à frente da tabela (24!!!), mantendo-se por lá até 1980, num período de 120 semanas! São números obscenos que ilustram o fenómeno da Disco, no seu apogeu dos late 70's.

Compreensivelmente, foram muitos os artistas que nesta época apanharam a carruagem do Disco, principalmente os artistas negros americanos (a faixa social onde teve mais influência) e os The Jacksons não foram excepção. Para o seu álbum "Destiny", a banda apostou forte no formato, com o tema "Blame It On The Boogie", um original de Mick Jackson (não relaccionado com ninguém da família Jackson).


Curiosamente, as versões de "Blame It On The Boogie" dos The Jacksons e de Mick Jackson foram lançadas em single na mesma altura, competindo por um lugar nas tabelas. A versão dos The Jacksons ganhou com naturalidade e mais recentemente, foi o próprio Mick que reconheceu que esta versão tinha a magia extra que a tornava incrível.

Neste tema, já é bastante perceptível que Michael Jackson era o elemento a despontar da família Jackson para uma brilhante carreira a solo, embora ninguém pudesse prever a dimensão do sucesso que alcançaria...
O álbum "Off The Wall" estava já ali ao virar da esquina (em 1979) e "Thriller" viria logo a seguir. Com o sucesso destes dois álbuns, principalmente de "Thriller", Michael obteria números ainda mais obscenos que a banda sonora de "Saturday Night Fever", consagrado-se, ele próprio, como o Rei da Disco.