terça-feira, 14 de dezembro de 2010

GNR - "Las Vagas"

"Roleta Russa aceita apostas - falsos fiéis das balanças
"é que em fortuna tudo são mudanças" [Camões] - perdes todos de quem gostas!"



Depois do enorme sucesso de "Rock In Rio Douro", álbum de 1992 dos GNR, a banda ficou com a árdua tarefa de pensar num sucessor à altura. O impacto de "Rock In Rio Douro" tinha sido estrondoso: 4 platinas, 160 mil cópias vendidas, 38 semanas de permanência no top nacional e 40 mil pessoas que esgotaram o malogrado Estádio de Alvalade, naquele que foi o primeiro concerto de uma banda portuguesa em Estádio. Números que reflectem um sucesso inédito para uma banda portuguesa... em Portugal.

Lembro-me bem da antecipação que foi feita ao "novo álbum dos GNR" nos media, qual banda internacional de renome. Isto mostrava a importância que os GNR tinham no início dos anos 90 em Portugal. O que é que eles teriam reservado para o sucessor de "Rock In Rio Douro"?

O sucessor chegaria em 1994, com o álbum "Sob Escuta", cujo primeiro single foi o tema "+ Vale Nunca". Com um claro apelo mainstream, "+ Vale Nunca" tocou em alta rotação nas rádios portuguesas e tornou-se num enorme êxito para os GNR. Apesar de tudo, globalmente "Sob Escuta" não parece ter a solidez do álbum anterior, mas não deixa de proporcionar alguns dos momentos mais altos da carreira dos GNR.

Capa retirada daqui

O ponto alto deste álbum é o brilhante "Las Vagas", um tema marcado pela poesia aparentemente arbitrária, característica de Rui Reininho. O uso da língua portuguesa é feito como se de uma paleta se tratasse, onde as palavras são cores que preenchem a tela da música.

"Onde a nave voga não havia vaga"
Mas nem só de lírica vivem os GNR e isso pode ser ouvido em "Las Vagas". Atentem na linha de baixo deste tema. Sublime.
"Las Vagas" foi o 2º single retirado de "Sob Escuta" e teve um videoclip gravado nos Estados Unidos, mas conheceu um sucesso bastante aquém do 1º single. Fica aqui um trecho do vídeo original:

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

10CC - "I'm Not In Love"

"It's just a silly phase I'm going through..."



Em 1975, os 10CC eram uma banda em sérias dificuldades de sobrevivência.
Apesar do relativo sucesso dos seus primeiros dois álbuns, o contracto com a editora de Jonathan King era muito pobre e a banda estava a ficar sem dinheiro e deseperadamente à procura de alternativas.

Até que um dia, um responsável da Mercury Records foi ao estúdio ouvir um tema que a banda estava a gravar e, estarrecido com o que acabara de ouvir, resolveu o problema aos 10CC.
Com base apenas nesta faixa, ofereceu imediatamente aos 10CC um contracto milionário de 5 álbuns, nos 5 anos seguintes. O catalisador? "I'm Not In Love".

A questão que fica é: porque é que este tema tem uma sonoridade tão diferente de TUDO o resto que já ouvimos? Antes e depois!

Enquanto toda a gente que já ligou a rádio durante a noite já ouviu "I'm Not In Love", poucos têm a noção da complexidade do processo de gravação deste tema.

O som etéreo e celestial deste tema foi obtido através de um laboroso trabalho de estúdio: durante 3 semanas consecutivas, um coro de apenas 4 vozes a cantar "Ahhhh" em todas as notas musicais foi gravado com múltiplos overdubs e misturado em multi-pista, num gravador de 16 canais, simulando um majestoso coro virtual de 256 (!!!) vozes.

A partir daqui, foram criados diversos loops, cada um correspondendo a uma nota musical. As notas da música foram depois tocadas na mesa de mistura (em vez de um sintetizador) para a gravação do tema, através dos faders: subindo ou descendo o fader correspondente a cada nota do tema, como se de um órgão se tratasse.

O resultado? Um tema relaxante e profundo, ao mesmo tempo sombrio e libertador. Um tema que, 35 anos depois do seu lançamento, continua completamente original, diferente de tudo o que tinha sido feito até aí e de tudo o que foi feito depois.
Maravilhoso.

domingo, 12 de dezembro de 2010

Undercover - "Baker Street"

"Just one more year and then you'll be happy"



O início dos anos 90 foi uma época viu que as pistas de dança povoadas de grande música. O Pop e o Rock misturaram-se com o Disco e muitos temas da noite chegaram mesmo a encontrar sucesso mainstream, com airplay significativo nas rádios generalistas. A música de dança era, no entanto, bastante diferente da que ouvimos hoje. Para melhor.
Foi o caso deste magnífico cover do tema mais famoso de Gerry Rafferty, "Baker Street" (um original de 1978), pela banda Undercover, que invadiu as discotecas e as tabelas em todo o mundo em 1992.

Confesso que me inclino mais para esta versão "dançável" deste tema, do que para o original de Gerry Rafferty.

sábado, 11 de dezembro de 2010

The Rolling Stones - "Gimme Shelter" (Live - "Ladies & Gentlemen")

"If I don't get some shelter, oh yeah I'm gonna fade away"



Hoje fica aqui "Gimme Shelter", ao vivo na lendária digressão americana dos Stones em 1972. A expressão "Sexo, Drogas e Rock N' Roll" deve ser associada, em primeira instância, a esta digressão, que serviu para promover o álbum "Exile on Main St.". Foi nesta altura que os Stones ganharam a reputação de maior banda Rock do mundo, muito devido à publicidade feita tanto em torno dos concertos, como do que acontecia no backstage.

Voltando ao tema, "Gimme Shelter" é retirado do álbum "Let It Bleed" de 1969, um álbum que representa, na minha opinião, o apogeu dos Stones. É um tema apocalíptico mid-tempo, que beneficia muito da adição de uma voz feminina.

Apesar de já gozarem de uma carreira com quase 50 anos (!!!), os Stones tiveram o seu período prolífico num espaço curto de tempo: aproximadamente entre 1965, com o lançamento de "(I Can't Get No) Satisfaction" (ainda hoje o seu tema ex-libris) e 1972, com o "Exile On Main St." e a histórica digressão americana de promoção ao álbum.

Depois disto os Rolling Stones nunca mais foram os mesmos, com a vida mundana do Rock a tomar conta da sua carreira até aos anos 80 e a partir daí, nunca mais recuperaram a grande forma artística do passado.

A performance que fica aqui está incluída no documento ao vivo "Ladies & Gentlemen: The Rolling Stones", um filme que, devido a questões de direitos, nunca tinha visto a luz do dia até agora, altura em que foi finalmente lançada em Blu-Ray, DVD e nesta magnífica edição de luxo:


Segundo este blog, o que está incluído na caixa é:

3 DVD:
Dvd 1: Filme "Ladies & Gentlemen: The Rolling Stones" + Bónus:
- Imagens do ensaio em Montreux;
- Old Grey Whistle Test de 1972 (entrevista com Mick Jagger);
- Entrevista com Mick Jagger em 2010;
Dvd 2: Documentário "Stones In Exile";
Dvd 3: Dvd Bónus - DVD de aproximadamente 40 minutos de duração, que contém:
- Imagens do Dick Cavett Show, com entrevistas e cenas dos bastidores dos concertos no Madison Square Garden, em 1972;
- Vídeo da televisão australiana, que inclui entrevistas com Keith Richards, Charlie Watts e Mick Taylor, filmado durante a digressão australiana;

Livro: Livro de capa dura com fotografias de Ethan Russel e Bob Gruen da "Exile On Main Street Tour";

Dois fotogramas de 35mm do filme "Ladies & Gentlemen: The Rolling Stones";

Cachecol: Cópia do cachecol original com o logótipo dos Stones oferecido na estreia de "Ladies & Gentlemen: The Rolling Stones" nos cinemas, em 1974;

Poster: Reprodução do poster de promoção da estreia de "Ladies & Gentlemen: The Rolling Stones" nos cinemas, em 1974.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Joy Division - "Love Will Tear Us Apart"

"When the routine bites hard and ambitions are low...
And the resentment rides high, but emotions won't grow..."



Como hoje é 6ª feira, hoje recordo uma banda que tantas vezes me acompanhou nas noites de boas-vindas ao fim-de semana: os Joy Division.

Para quem não conhece, os Joy Division foram uma banda inserida no movimento post punk inglês do final dos anos 70. Originalmente, o nome da banda era "Warsaw", em homenagem ao tema "Warszawa", do álbum "Low" de David Bowie.

A banda teve uma vida muito curta, uma vez que o seu vocalista - Ian Curtis - sofria de graves depressões, acabando por se suicidar em 1980, numa altura em que a banda começava a ganhar alguma notoriedade. Os restantes membros formaram os New Order e cimentaram o estilo New Wave, num desenvolvimento natural do trabalho que já faziam com os Joy Division.

O tema que fica aqui é o icónico "Love Will Tear Us Apart". Lançado um mês antes do suicídio de Ian Curtis, o tema acabaria por se tornar o primeiro grande êxito dos Joy Division, após a notícia da sua morte. Quase 30 anos depois, ainda é o tema ex-libris da banda.


Se quiserem saber mais acerca da história de Ian Curtis e dos Joy Division, recomendo vivamente o excelente filme de 2007 "Control", de Anton Corbijn.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

The Beatles - "I Am The Walrus"

"I am he, as you are he, as you are me and we are all together"

Ontem fez 30 anos que John Lennon foi assassinado à porta da sua casa em Nova Iorque.

O autor deste obsceno crime foi Mark Chapman, um homem que sofria de graves distúrbios mentais e que alegadamente até era um grande fã dos The Beatles. Ao longo dos anos, Chapman foi desenvolvendo uma obsessão em matar Lennon, uma vez que este, nos anos da sua carreira a solo, manifestava-se frequentemente contra o seu passado nos The Beatles, a religião, ou o direito à propriedade ("Imagine no possessions"). Apesar deste intervencionismo, Lennon tinha uma conta bancária recheada, pelo que Chapman achava que Lennon era um hipócrita e acreditava mesmo que depois do seu assassinato, Chapman seria visto como um visionário e um salvador.

Foi devido a esta demência que se perdeu um dos mais inventivos, mais influentes e mais importantes artistas da História.

Se é fácil reconhecer que John Lennon fez uma grande quantidade de trabalhos brilhantes, mais difícil é identificar a sua obra-prima. Para mim, esta é a resposta:



Lançado em 1967 simultaneamente no álbum/EP "Magical Mystery Tour" e como o Lado B do single nº1 "Hello Goodbye", "I Am The Walrus" é um dos temas de maior influência psicadélica dos The Beatles. Sem surpresa, Lennon revelaria mais tarde que grande parte do tema tinha sido escrito durante as suas trips.


"GOO GOO G´JOOB"

O carácter indecifrável da letra deve-se também ao facto de Lennon ter recebido uma carta de um aluno do Secundário, revelando que as letras das suas músicas eram objecto de estudo nas aulas de Inglês. Em resposta, Lennon deciciu escrever um tema cuja letra não fizesse qualquer sentido, de forma a confundir este sistema.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Zero 7 - "Out Of Town"



Mais do que a revelação do ano de 2001, os Zero 7 foram uma surpresa pela abordagem. O seu álbum de estreia "Simple Things" é o meu preferido deste ano. Para eu escolher um álbum de Chill Out (ou Trip-Hop) como o “álbum do ano”, ou o ano foi especialmente desinteressante para mim, ou o álbum é realmente muito bom. Eu diria que há muito poucos álbuns nos anos 00 que chegam a “Simple Things”. Listar as grandes músicas neste álbum corresponderia praticamente a transcrever a tracklisting. É mesmo assim... that good.



Mas a pergunta impõe-se: como é que uma banda de música electrónica consegue fazer algo tão atractivo para um aficionado do Rock? A resposta está na soma de estilos que eles reuniram para criar a sonoridade deste álbum. Ao contrário doutras bandas do género, demasiado apoiadas na electrónica, os Zero 7 foram também buscar elementos ao Soul, à World Music e, nalguns casos, no que à estrutura concerne, ao Rock. A inspiração pelos Air também é clara, nomeadamente em "La Femme D'Argent" - o tema de abertura de "Moon Safari".

O tema que aqui fica é "Out Of Town", o meu preferido de "Simple Things". Atentem ao riff de guitarra...

Se eu tivesse que escolher 5 álbuns dos 00’s, “Simple Things” com certeza lá estaria. Se estão à procura daquele álbum relaxante para desligar dos problemas do quotidiano, não procurem mais... É aqui.
Inteligente e brilhante.
Obrigatório.