"When the routine bites hard and ambitions are low...
And the resentment rides high, but emotions won't grow..."
Como hoje é 6ª feira, hoje recordo uma banda que tantas vezes me acompanhou nas noites de boas-vindas ao fim-de semana: os Joy Division.
Para quem não conhece, os Joy Division foram uma banda inserida no movimento post punk inglês do final dos anos 70. Originalmente, o nome da banda era "Warsaw", em homenagem ao tema "Warszawa", do álbum "Low" de David Bowie.
A banda teve uma vida muito curta, uma vez que o seu vocalista - Ian Curtis - sofria de graves depressões, acabando por se suicidar em 1980, numa altura em que a banda começava a ganhar alguma notoriedade. Os restantes membros formaram os New Order e cimentaram o estilo New Wave, num desenvolvimento natural do trabalho que já faziam com os Joy Division.
O tema que fica aqui é o icónico "Love Will Tear Us Apart". Lançado um mês antes do suicídio de Ian Curtis, o tema acabaria por se tornar o primeiro grande êxito dos Joy Division, após a notícia da sua morte. Quase 30 anos depois, ainda é o tema ex-libris da banda.
Se quiserem saber mais acerca da história de Ian Curtis e dos Joy Division, recomendo vivamente o excelente filme de 2007 "Control", de Anton Corbijn.
"I am he, as you are he, as you are me and we are all together"
Ontem fez 30 anos que John Lennon foi assassinado à porta da sua casa em Nova Iorque.
O autor deste obsceno crime foi Mark Chapman, um homem que sofria de graves distúrbios mentais e que alegadamente até era um grande fã dos The Beatles. Ao longo dos anos, Chapman foi desenvolvendo uma obsessão em matar Lennon, uma vez que este, nos anos da sua carreira a solo, manifestava-se frequentemente contra o seu passado nos The Beatles, a religião, ou o direito à propriedade ("Imagine no possessions"). Apesar deste intervencionismo, Lennon tinha uma conta bancária recheada, pelo que Chapman achava que Lennon era um hipócrita e acreditava mesmo que depois do seu assassinato, Chapman seria visto como um visionário e um salvador.
Foi devido a esta demência que se perdeu um dos mais inventivos, mais influentes e mais importantes artistas da História.
Se é fácil reconhecer que John Lennon fez uma grande quantidade de trabalhos brilhantes, mais difícil é identificar a sua obra-prima. Para mim, esta é a resposta:
Lançado em 1967 simultaneamente no álbum/EP "Magical Mystery Tour" e como o Lado B do single nº1 "Hello Goodbye", "I Am The Walrus" é um dos temas de maior influência psicadélica dos The Beatles. Sem surpresa, Lennon revelaria mais tarde que grande parte do tema tinha sido escrito durante as suas trips.
"GOO GOO G´JOOB"
O carácter indecifrável da letra deve-se também ao facto de Lennon ter recebido uma carta de um aluno do Secundário, revelando que as letras das suas músicas eram objecto de estudo nas aulas de Inglês. Em resposta, Lennon deciciu escrever um tema cuja letra não fizesse qualquer sentido, de forma a confundir este sistema.
Mais do que a revelação do ano de 2001, os Zero 7 foram uma surpresa pela abordagem. O seu álbum de estreia "Simple Things" é o meu preferido deste ano. Para eu escolher um álbum de Chill Out (ou Trip-Hop) como o “álbum do ano”, ou o ano foi especialmente desinteressante para mim, ou o álbum é realmente muito bom. Eu diria que há muito poucos álbuns nos anos 00 que chegam a “Simple Things”. Listar as grandes músicas neste álbum corresponderia praticamente a transcrever a tracklisting. É mesmo assim... that good.
Mas a pergunta impõe-se: como é que uma banda de música electrónica consegue fazer algo tão atractivo para um aficionado do Rock? A resposta está na soma de estilos que eles reuniram para criar a sonoridade deste álbum. Ao contrário doutras bandas do género, demasiado apoiadas na electrónica, os Zero 7 foram também buscar elementos ao Soul, à World Music e, nalguns casos, no que à estrutura concerne, ao Rock. A inspiração pelos Air também é clara, nomeadamente em "La Femme D'Argent" - o tema de abertura de "Moon Safari".
O tema que aqui fica é "Out Of Town", o meu preferido de "Simple Things". Atentem ao riff de guitarra...
Se eu tivesse que escolher 5 álbuns dos 00’s, “Simple Things” com certeza lá estaria. Se estão à procura daquele álbum relaxante para desligar dos problemas do quotidiano, não procurem mais... É aqui.
Inteligente e brilhante.
Obrigatório.
Hoje, espaço para a música pop “lightweight”… que é muito mais do que isso. Os Simply Red, qualquer que seja o rótulo que lhes queiram pôr, sempre se quiseram afastar das restantes bandas pop e misturar diversas influências na sua música (soul, reggae, música cubana, dance music…), beneficiando depois dos (enormes) dotes vocais de Mick Hucknall.
É precisamente isso que é oferecido em “Home”, um álbum extremamente diversificado e que, na minha opinião, representa o ponto alto da carreira dos Simply Red, pelo menos desde o álbum de estreia “Picture Book” de 1985.
A quantidade de temas de qualidade apresentados em "Home" é impressionante: desde os singles "Fake" ou "Sunrise" (com um sample de "I Can't Go for That (No Can Do)" dos Hall And Oates), passando pelo cover de Bob Dylan "Positively 4th Street", mas principalmente o tema-título "Home" e "Home Loan Blues", com o uso proeminente do piano eléctrico.
Fica aqui precisamente "Home Loan Blues", num registo ao vivo. Esta actuação remonta à digressão de promoção de "Home" e teve lugar num dos espaços mais espectaculares para concertos rock: o lindíssimo anfiteatro greco-romano de Taormina, na ilha da Sicília.
"I've been working real hard, trying to get my hands clean"
Com este post, termino hoje a sequência de artigos dedicados a "Darkness On The Edge Of Town" de Bruce Springsteen, por ocasião da (magnífica) reedição do álbum. Juntamente com o álbum remasterizado, esta reedição conta com a compilação "The Promise", com dois (!!) discos de temas que ficaram de fora do álbum original, um concerto completo da lendária digressão de promoção do álbum em 1978, um documentário sobre a história do álbum, uma performance recente do álbum e ainda diverso material de arquivo.
Assim, a caixa é composta por 3 CD e 3 Blu-Ray (ou DVD, na versão mais barata) e é uma delicia para quem é fã de Bruce ou, como é o meu caso, deste álbum em particular.
Resumidamente, o conteúdo da caixa é o seguinte:
CD 1 - "Darkness On the Edge of Town" (Remastered) CD 2 - "The Promise" (Disc 1) CD 3 - "The Promise" (Disc 2) DVD 1 - The Promise: The Making of "Darkness On the Edge of Town" (documentário sobre o gravação do álbum, realizado por Thom Zimmy, vencedor de prémios Emmy e Grammy) DVD 2 - "Darkness on the Edge of Town": Paramount Theatre, Asbury Park & Thrill Hill Vault: 1976–1978 (performance intimista do álbum completo, filmada em Asbury Park em 2009. Filmagens do arquivo pessoal de Bruce Springsteen, nunca antes vistas) DVD 3 - Houston '78 Bootleg: House Cut (concerto completo da Darkness on the Edge of Town Tour, nunca antes visto)
Olhando agora para o álbum original, este começa com um estrondoso Badlands (que parece fazer a transição do optimismo de "Born To Run" para o que viria a seguir) e depois continua até ao fim do Lado 1 com uma das sequências mais fantásticas num álbum rock: o brutal "Adam Raised A Cain", o desesperante "Something In The Night", o explosivo "Candy's Room" e o melancólico "Racing In The Street". É difícil escolher momentos altos ou baixos no Lado 1 deste álbum, tal é a sua solidez.
O Lado 2 parece começar mais uma vez com um raio de optimismo em "The Promised Land", outro fabuloso tema, mas também aqui prossegue com temas que transmitem dificuldades. A dureza da rotina de uma vida de trabalho em "Factory", a dureza da libertação em "Streets Of Fire" e a dureza do compromisso em "Prove It All Night". Todos estes temas fazem um build-up para o que chega no fim, quando o sujeito do álbum já perdeu tudo e surge de mãos vazias e coração despedaçado em "Darkness on the Edge of Town", terminando o álbum de forma sumária e lapidar:
"I'll pay the cost for wanting things that can only be found in the darkness on the edge of town"
O que me parece de realçar em "Darkness" é que, enquanto os temas no Lado 1 aparecem no álbum com as suas versões definitivas, os temas no Lado 2 parecem resultar melhor em concerto (especialmente na digressão de 1978), integrados num ambiente mais livre, vivo e acutilante. Para além disso, alguns temas foram alargados nas versões ao vivo, casos de "The Promised Land", com um solo duplo de harmónica no início e principalmente de "Prove It All Night" cuja versão no álbum durava 3:56, mas que ao vivo por vezes passava a marca dos 10 minutos.
E foi mesmo ao vivo que este álbum ganhou outra dimensão. A digressão de "Darkness On The Edge Of Town" ainda hoje é recordada como uma das mais intensas e lendárias da história do rock. A banda tinha chegado ao seu ponto alto, aperfeiçoando a performance dos temas novos e antigos.
O vídeo que está em cima é de uma performance de "Prove It All Night" em Phoenix, ainda no início da digressão, numa altura em que a versão alargada ainda não estava bem oleada, mas já dá para ter uma ideia. Esta versão está incluída no material de arquivo da reedição de "Darkness On The Edge Of Town".
Para terminar, vou fazer uso das palavras do próprio Bruce Springsteen, da mesma maneira que ele fecha o documentário de Thom Zimmy.
“How do you deal with those things and move on (...) to a life where you can make your way through the day and sleep at night”
“That's what most of these songs were about”
P.S.: Para leitura complementar: os Capítulos I, II e III.
A chegada dos The Prodigy à cena musical nos anos 90 terá sido o fenómeno mais próximo do impacto da chegada dos Sex Pistols nos anos 70. Os Pistols trouxeram a revolução do Punk ao underground britânico. Os The Prodigy impulsionaram a introdução do Techno no mainstream, primeiro no Reino Unido e mais tarde um pouco por todo o mundo.
A ligar estes fenómenos espaçados de quase 2 décadas está o impacto estrondoso que estas bandas tiveram junto da juventude alternativa e rebelde. Se é verdade que não estive presente na revolução do Punk, lembro-me bem do choque que foi a chegada dos The Prodigy, principalmente do álbum que os projectou para o mainstream: "The Fat Of The Land" em 1997.
Tudo nos The Prodigy era chocante: a aparência dos membros da banda (principalmente Flint), que pareciam saídos de um filme de terror; a música agressiva, que era algo como nunca tinha ouvido até então; o conteúdo das letras e claro, os vídeos, principalmente o clip de "Smack My Bitch Up", o 3º single do álbum "The Fat Of The Land".
Em 1997 ninguém tinha internet em casa, não havia Youtube e muito pouca gente tinha acesso a canais de música como a MTV. Por isso, o vídeo de "Smack My Bitch Up", globalmente censurado (por razões óbvias), era praticamente inacessível à minha faixa etária. Mas a verdade é que se falava muito do vídeo, muitas vezes sem ninguém o ter visto e muitas vezes ampliando o seu conteúdo.
Foi por isso que, quando numa noite de 6ª feira o clip foi transmitido a altas horas num programa da RTP2 (com a respectiva bolinha vermelha no canto do ecrã), tinha grandes expectativas para saber a explicação de tanta polémica.
Durante aqueles 4 minutos e meio, fiquei estarrecido a olhar para o ecrã.
Mas no fim de contas, devido à minha tenra idade, acabei por perceber muito pouco do que realmente se passava no vídeo, apenas solidificou a minha ideia de que tudo relacionado com os The Prodigy era chocante.
Só quando voltei a ver o vídeo alguns anos mais tarde, é que percebi o motivo de tanta controvérsia. E motivos para controvérsia não faltam aqui. Não querendo desvendar o desfecho desta obra prima dos vídeos musicais, o enredo passa-se numa saída à noite, envolvendo álcool, droga, prostituição, roubo e um golpe de teatro no fim, capaz de provocar aquela sensação de HUH digna de um thriller.
Ao longo dos anos, "Smack My Bitch Up" foi ganhando várias consagrações como o vídeo mais controverso de sempre, tendo sido na época banido de praticamente toda a televisão. Só a MTV, devido aos insistentes pedidos do público, se disponibilizou para passar o vídeo, mas somente depois da meia noite. Apesar disso, o vídeo acabaria por levar dois MTV Video Music Awards nesse ano, consagrando a obra de arte do realizador sueco Jonas Åkerlund e a própria banda, que vivia os seus anos de apogeu.
Os primeiros 3 álbuns de Bruce Springsteen são uma ode ao romance, aos sonhos da vida e do Rock N' Roll, sob a premissa que tudo é possível, desde que se acredite piamente nisso e se tenha força de vontade suficiente para mudar.
São álbuns que transmitem um sentido de possibilidades ilimitadas que intoxicam o ouvinte. São álbuns cheios momentos de glória que não são reais, são fantasias que reflectem a vontade de um jovem de origens modestas, mas com grande coração, em triunfar no mundo.
Na introdução do documentário "The Promise: The Making Of Darkness On The Edge Of Town", incluído na edição especial lançada no último mês, Bruce Springsteen descreve o álbum da seguinte forma:
“The album is a reckoning with the adult world, with a life of limitations and compromises.”
Numa retrospectiva, podemos dizer que a visão que definiu a carreira de Bruce é dada em “Darkness on the Edge of Town” e não nos seus primeiros álbuns. As ideias de luta contra as dificuldades do mundo e os handicaps da vida são a fundação de quase tudo o que seguiria no seu trabalho.
O resultado desta mudança foi um álbum bem menos comercial e com sucesso bem mais reduzido. Mas isso não incomodou Bruce Springsteen, uma vez que a sua motivação para este álbum era criar algo verdadeiramente seu, inserido nas experiências que estava a viver. Como o próprio diz no referido documentário:
"More than rich, more than famous, more than happy, I wanted to be great"
A prova de que Bruce Springsteen não procurava o sucesso mainstream com este álbum é a escolha das músicas. Alegadamente, foram escritos e gravados aproximadamente 60 a 70 temas para "Darkness", sendo que a larga maioria não chegou à versão final do álbum.
Alguns destes temas seriam oferecidos a outras artistas e resultaram em grandes êxitos (por exemplo, "Because The Night" a Patti Smith, ou "Fire" às Pointer Sisters). Outros temas só chegariam no álbum seguinte, o duplo "The River", ou muito mais tarde na retrospectiva de 4CD "Tracks", em 1998. Outros ainda apareceriam apenas em performances ao vivo, ou em bootlegs que os fãs partilhavam entre si.
Tudo isto até agora, quando em 2010 chega finalmente a tão prometida edição especial de "Darkness On The Edge Of Town". Juntamente com esta reedição, é lançado "The Promise", uma compilação de 22 temas que ficaram de fora do álbum. Neste lote, incluem-se temas mais conhecidos como "Because The Night", "Fire", temas novos como "Save My Love" ou até versões alternativas de temas do álbum, como a versão eléctrica de "Racing In The Street".
Dos temas incluídos em "The Promise", provavelmente o mais conhecido é mesmo "Because The Night", que seria o grande êxito da carreira de Patti Smith. Como é contado no documentário pelos próprios, Bruce Springsteen deixou o tema fora de "Darkness On the Edge Of Town" porque era uma canção de amor e não entrava no espírito gélido que procurava para o álbum. Assim, o tema foi entregue a Patti por meio de Jimmy Iovine (um produtor que trabalhava com ambos), ainda com partes da letra incompleta. Patti completou-a e lançou "Because The Night" como single de avanço do seu álbum "Easter".
Mais tarde, Bruce completaria a letra à sua maneira e o tema tornar-se-ia uma presença assídua nos seus concertos. Fica aqui um exemplo de uma versão ao vivo de "Because The Night" em Houston, uma performance também incluída na reedição de "Darkness On The Edge Of Town".