sexta-feira, 8 de junho de 2018

Crowded House – "Hole In The River"

"There's a hole in the river where my auntie lies"

Barreiro 

Sendo filho da irmã mais nova de cinco do lado da minha Mãe e do segundo mais novo de quatro irmãos do lado do meu Pai, cresci num imaginário carregado de tios, tias e primos por quem tinha um enorme fascínio, especialmente os meus primos mais velhos e particularmente os que estavam mais longe – os meus primos do Barreiro.

É preciso perceber que nesta altura ir de Castelo Branco a Lisboa era uma epopeia que durava 5 horas de estradas nacionais e paragens à beira estrada para fazer chichi. Para um miúdo de 5 anos eram 5 horas que pareciam 5 eternidades. A viagem para ver os meus primos era penosa, mas a recompensa saborosa.

Adorava a minha prima Patrícia. Como não? Ela tratava-me como um príncipe. Pegava em mim e passeava-me ao colo pelas ruas do Barreiro, enquanto me cantava ao ouvido as suas músicas preferidas do George Michael e do Rick Astley. "Bagaquétchu", repetia eu, quando ela me ensinava a dizer "Never gonna give you up". Adorava, adorava, adorava. Best fucking days of my life. Tudo era diferente, desconhecido e misterioso, um mundo de ruas, edifícios e cores diferentes das que conhecia em Castelo Branco. O deslumbramento era total.

Mas por muito que adorasse a minha prima Patrícia, o meu grande ídolo era o irmão mais novo dela, o meu primo Marco.

O Marco era para mim o exemplo máximo de coolness no mundo. Mas não era só eu. Toda a família venerava o Marco. Ele era visto como um deus grego que irradiava simpatia, era outgoing e ajudava nas tarefas e tudo vestindo sempre um sorriso. Era impossível não gostar dele. Mas o Marco parecia ter um fascínio por mim inversamente proporcional ao que eu tinha por ele. Eu venerava-o e ele parecia desprezar-me com veemência. Sabia lá eu. Ele devia achar que eu era só um puto estúpido e não me ligava nenhuma.

Um dia, o Marco comprou uma mota. Nada de mais, poder-se-ia pensar. Só que ter uma mota no Barreiro trouxe-lhe amigos e um estilo de vida que acabou com a vida dele. Perdeu-se nos caminhos por onde escolheu andar. Nunca mais se encontrou. Uma pena. Tanta esperança depositada no rapaz, para nada.

Elusivo e com um discurso cada vez mais desconexo, caiu em desgraça na família e também eu rapidamente deixei de o achar cool. Como lhe tomei o lugar de mais cool da família, o desprezo dele por mim pareceu ficar ainda mais vincado. Como nos fomos afastando como pessoas, nunca partilhámos grande coisa ao longo dos anos.

Até que um dia fui viver para a casa dele no Barreiro.

As voltas que a vida dá. Eu tinha sido expulso de todas as casas onde vivera em Lisboa (uma delas acabara numa épica cena de pancadaria) e a minha tia Maria José tomou-me em casa dela – onde o Marco ainda vivia – e tratou-me como um príncipe. Lamentavelmente, um príncipe vegetariano (a minha tia não permitia que entrasse carne lá em casa), mas um príncipe nevertheless. Ela fazia tudo o que podia para me agradar e um dia até fez uns bifinhos de peru só para mim. Tenho com ela uma dívida de gratidão que temo nunca conseguir pagar na mesma magnitude.

Estes meses coincidiram de forma bizarra com o único período em que o Marco viveu uma vida adulta, digamos, normal. Que é como quem diz, levantar-se cedo todos os dias e ir trabalhar. Para nós algo tão prosaico, para ele uma penitência que lhe parecia sugar a alma. Saíamos todos os dias às 7 da manhã de carro e ele deixava-me na estação de barcos para eu apanhar o Catamaran para o Terreiro do Paço e depois seguir para o Técnico. Aquela rotina foi a única coisa que realmente partilhámos em 30 anos. Aproximou-nos. Finalmente, éramos sort of amigos. Mais ou menos, mas éramos qualquer coisa. Ele confessava-me o quão penoso era aquele ordálio de levantar cedo e eu via-lhe nos olhos que aquilo não ia dar. Não por muito tempo.

Os três meses que vivi no Barreiro passaram num instante.Via a situação como algo temporário e por isso nunca criei laços com aquele lugar. Na minha última noite no Barreiro, eu e o Marco fomos jantar a casa da minha tia Maria – irmã mais mais velha da minha Mãe e da minha tia Maria José. Nessa noite cumpriu-se família.

A minha tia Maria irradiava felicidade por nos ter a jantar lá em casa. De facto, aquela mesa apresentava uma concentração de coolness no ramo familiar em níveis estratosféricos. A ocasião era solene e ela não fez por menos: deu-nos luz verde para assaltarmos o armário de licores  e assim o fizemos. A minha tia adorava um copozito, principalmente desde a morte do marido. Eu e o Marco também, desde sempre. Deve ser de família. Embebedámo-nos todos como os velhos amigos que nunca fomos, três gerações diferentes a cruzar estórias de vida por entre copos de Drambuie. E o desejo do pequeno eu foi finalmente cumprido, ainda que apenas por uma noite. A noite do último jantar.

"There's a hole in the river where a memory lies"

"Hole In The River" é um tema do álbum de estreia dos Crowded House que conta uma história verídica. Em "There's a hole in the river where my auntie lies", Neil Finn está mesmo a cantar sobre a sua tia: "That actually was a rare occasion where I sat down and had a story to tell. I'd just been told over the phone by my father that his sister had committed suicide. I was playing the tune on the piano before he rang me, and then he rang me and I just repeated it, basically, to the melody.".

O tema é apenas mais um dos exemplos da twisted sweetness que é a música dos Crowded House. Canções sujas com roupagens cândidas. Lobos com pele de cordeiro. Niilismo colorido. E é precisamente isso que me apaixona nos Crowded House. Depois de ler sobre a origem desta canção, experimentem atentar nas backing vocals caóticas na coda do tema. A mulher a gritar la muito atrás. Até aperta o peito.

"We were touched by a cold wind"

De forma trágica e quase-profética, quando finalmente saí do Barreiro e fui para a minha casa em Lisboa (onde viveria durante os 13 anos seguintes), o Marco despediu-se do único emprego estável que alguma vez teve e voltou para a sua vida errática e sem rumo.

A minha tia também se perdeu pouco depois para uma relação geriátrica (nada contra o amor tardio, desde que saudável) com um velho que lhe deu o que ela queria, mas não o que ela precisava. Durante anos, falou da noite do último jantar com o orgulho de quem recebe o Rei em casa, gabando-se de ter sido a anfitriã de tão solene momento.

Ao contrário da minha avó (que fica para outro episódio), a minha tia era fraca e quando a relação geriátrica acabou, ela quebrou e não sobreviveu ao lar de idosos onde foi despejada. Quando se sentiu abandonada, a minha tia morreu. Sem mais. Sem avisos. Semanas depois. De tristeza, como um cão abandonado pelo dono. E eu nem sequer lhe pude dizer adeus, ou dizer-lhe apenas "sonhos cor-de-rosa", como ela me dizia quando me deitava quando tinha 5 anos. Que miséria.

O tempo mata tudo. Tudo. E por isso não há, nem pode haver, tempo a perder. É aproveitar o tempo que temos e atar laços com os que amamos. Atar essa merda com toda a força possível. A sério. É não ter medo de nos darmos a quem gostamos, porque são esses momentos, aparentemente pequenos e insignificantes, que uns anos mais tarde vão estar a recordar e a escrever furiosamente no telemóvel durante uma viagem de regresso a casa, a primeira como emigrante, enquanto lêem uma biografia do Johnny Marr. Momentos como o jantar da última noite no Barreiro.

O laço que formámos naquela noite ficou ate ao fim. Poucas semanas antes de morrer, já sob delírios de insanidade, ela clamava por um perfume que eu um dia casualmente lhe disse que cheirava bem – um comentário sem importância nenhuma para mim, mas que ela guardou como um tesouro para si. Porra. Quando me contaram a história até fiquei com o coração apertado.

Desde aquela noite, nunca mais voltei ao Barreiro.
Minto. Voltei uma vez. Para enterrar a minha tia.

"There is no return"

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